terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Um outro mundo - Um Mergulho no Cinema Iraniano


Na semana passada, os olhares do mundo se voltaram novamente para o oriente médio. O atentato na França, praticado por fundamentalistas islâmicos contra o periódico Charlie Habdo, trouxe novamente à tona discussões sobre os efeitos nefastos do fundamentalismo religioso. E, como já era de se esperar, não tardou para que a discussão ganhasse, em diversos momentos, contornos xenofóbicos e islamofóbicos. Pautados pelo mídia ocidental, frequentemente esquecemos que o fundamentalismo está presente não só no islamismo; os Estados Unidos invadiram o Afeganistão e o Iraque com a bandeira do cristianismo hasteada; Israel há décadas massacra o povo árabe em nome da tradição judaica. No entanto, a impressão que ainda se tem é a de que todo muçulmano é um terrorista em potencial, o que, obviamente, é puro preconceito. 

Por acaso, ou por mera ironia do destino, eu tinha começado esta maratona com filmes iranianos poucos dias antes do atentado e, já nos primeiros filmes, eu já tinha refletido sobre a importância desta riquíssima produção cinematográfica, que consegue mostrar uma realidade que tão pouco conhecemos, isso porque simplesmente a mídia, à qual temos acesso, prefere, por questões políticas e econômicas, não retratá-la. Esta reflexão se intensificou após o atentado... Diante de obras dotadas de um humanismo tão belo e tão tocante é praticamente impossível não questionar as impressões preconcebidas que alimentamos durante tanto tempo. O Irã retratado nestas obras é ao mesmo tempo tão distante e tão próximo de nossa própria realidade. Ainda existe o afastamento cultural e geográfico, porém há coisas muito mais profundas que nos aproximam e nos ajudam a compreender uma realidade que ainda nos causa tanto estranhamento.

O Irã é atualmente o maior produtor de gás natural do mundo e possui a 4° maior reserva comprovada de petróleo, não por acaso ele se encontra no eixo afetado pelo conflito econômico (disfarçado de religioso) que há décadas dizima o Oriente Médio. Obviamente, a realidade social, política e econômica do país influencia diretamente sua produção cultural, os ecos dos inúmeros conflitos, da desigualdade social e da falta de liberdade estão presentes em praticamente todos os filmes iranianos que já assisti, porém estes temas são retratados na maioria das vezes de uma forma singela e altamente poética, um efeito natural da censura e da patrulha ideológica que já vitimou, dentre outros, o cineasta Jafar Panahi, que foi condenado a seis anos de prisão e a 20 anos sem filmar, escrever ou sair do país, sob a acusação de conspirar contra o regime de Mahmoud Ahmadinejad e filmar sem autorização prévia do governo. 

Estilisticamente, o cinema iraniano bebe muito da fonte da Nouvelle Vague Francesa e do Neorrealismo Italiano; da primeira escola foi herdado o experimentalismo formal e estético, a construção de tramas minimalistas que ganham significados maiores durante os seus desenvolvimentos e a supremacia do viés autoral em relação ao comercial; da segunda escola foi herdado o fatalismo social, a opção por filmar nas ruas e em locação reais e não em estúdios e a preferência por retratar a dura realidade dos oprimidos e dos menos favorecidos - Sem mais delonga, vamos aos filmes. Desta vez, optei por comentá-los não na ordem em que foram vistos, mas separando-os por autores, pois assim fica mais fácil correlacioná-los. 


Assisti a quatro filmes de Abbas Kiarostami, um dos maiores nomes do cinema iraniano, cuja obra é marcada por reflexões morais e existencialistas. A morte, o sentido da vida, a felicidade e o sofrimento que há no mundo são temas recorrentes em seus filmes, que ganham ares filosóficos ao abordar tais questões. Três dos longas assistidos compõem aquela que ficaria conhecida como a trilogia de Koker. O primeiro deles, Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987), tem como protagonista o menino Ahmad (Babek Ahmed Poor), que sai de Koker, o vilarejo onde mora, para procurar a casa de um colega de escola para devolver-lhe um caderno de tarefas que seria avaliado pelo professor no dia seguinte. Em sua busca, o menino acaba se encontrando com diversas outras pessoas com quem acaba interagindo, os diálogos deixam evidente que o plot da trama é apenas um ponto de partida e que ela está na verdade discutindo questões muito mais complexas. Vale destacar a ótima atuação de Babek e a capacidade do cineasta de usar como elementos de linguagem as locações, os enquadramentos e a escolha entre o que mostrar e o que não mostrar - muitas vezes o que não é mostrado diz muito mais do que aquilo que vemos


O segundo filme da trilogia de Koker, Vida e Nada Mais... (1992), retrata a busca de um cineasta (Farhad Kheradmand), alter-ego de Abbas, e de seu filho (Buba Bayour) por notícias de Babek Ahmed Poor, o ator que interpretou Ahmad no filme anterior. A história se passa no ano de 1990, dias após um terremoto que devastou toda uma região do Irã. O cineasta teme que o menino que participara de seu filme esteja morto, assim como tantas outras pessoas da cidade de Keker... O formato do longa é semelhante o de seu antecessor, porém agora os protagonistas, que também procuram desesperadamente por algo, estão em um carro e interagem com pessoas que encontram à beira da estrada. Dos diálogos surgem reflexões sobre a morte e sobre o sofrimento. O fatalismo se faz presente nos depoimentos de pessoas que atribuem tão somente à vontade de um deus a responsabilidade pelo sofrimento que se abatera sobre as suas vidas. O cenário de destruição remete diretamente ao neorrealismo italiano e a relação entre pai e filho mostrada no filme me fez lembrar de um dos maiores clássicos desta escola, Ladrões de Bicicleta (1948), de Vittorio De Sica.


No último filme da trilogia, Através das Oliveiras (1994), a metalinguagem adquire uma proporção ainda maior. Na história, que se passa no set de filmagens de Vida e Nada Mais..., o diretor (Mohamad Ali Keshavarz), novamente um alter-ego de Abbas, se vê na difícil situação de dirigir um casal de jovens atores, o rapaz (Hossein Rezai) está apaixonado pela moça (Tahereh Ladanian), porém a família dela não aceita o casamento porque ele é analfabeto e não tem uma casa para morar. Ciente de que se trata de um amor impossível ela se recusa a conversar com ele e sequer dá algum tipo de atenção para as inúmeras perguntas e declarações que ele faz. Eles interagem um com o outro apenas nos momentos da gravação, quando estão ambos nas peles de seus respectivos personagens... Neste filme a reflexão proposta sai do campo existencialista e vai, na maior parte dos diálogos, para o social. Sutilmente o diretor chama a atenção para o distanciamento entre as classes e para costumes separatistas que continuam sendo propagados de geração para geração. 


Em O Vento Nos Levará (1999), Kiarostami coloca a morte novamente no foco das reflexões filosóficas ensaiadas pela trama. Na história, um homem (Behzad Dorani) conhecido apenas como o 'engenheiro' chega com sua equipe a uma cidade do interior do Irã com a desculpa de que fará um serviço de engenharia. Mas, o real interesse do grupo é na verdade documentar um tipo de cerimônia religiosa, realizada em sepultamentos, que só acontece naquela região do país. O 'engenheiro' e sua equipe esperam ansiosos pela morte de uma anciã que, acometida por uma doença grave, se encontra impossibilitada de andar e não consegue mais comer. Porém, os dias vão passando e a moribunda começa apresentar sinais de melhoras, o 'engenheiro' se vê então diante de um dilema ético e moral e deste dilema surgem as reflexões sobre a finitude da vida, sobre a sua desvalorização diante da espetaculização da morte e sobre a nossa própria fragilidade e efemeridade.


Majid Majidi, um dos meus favoritos dentre os iranianos, consegue estabelecer um meio termo muito interessante entre o realismo proposto por Bahman Ghobadi - cujos filmes comentarei mais adiante - e  a poética das obras de Kiarostami. Com um olhar sempre singelo, ele retrata através de suas obras a luta de indivíduos para se adaptarem e sobreviverem em meios que lhes são de alguma forma estranhos e hostis. Assuntos como desemprego, pobreza, má qualidade de serviços públicos ganham evidência em suas obras, porém de uma forma que consegue ser contestadora sem perder a ternura e a sensibilidade. Em Filhos do Paraíso (1997), Majidi parte de uma situação simples para construir uma história capaz de nos emocionar e nos fazer questionar uma série de paradigmas. Ali (Amir Farrokh Hashemian) mora com os pais e a irmã, Zahra (Bahare Seddiqi) em um subúrbio de Teerã, capital do Irã, sua mãe está doente e o pai provê o sustento da casa fazendo pequenos bicos. No início da história Ali perde um par de sapatos da irmã e, com medo da represália da mãe, ele não conta sobre o ocorrido. À partir de então ele e a irmã passam a dividir um surrado par de tênis para irem à escola, o que acaba os envolvendo em uma série de confusões. 


A Cor do Paraíso (1999), tem como personagem principal, o menino Mohammad (Mohsen Ramezani), ele, que estuda em uma escola para cegos em Teerã, é levado pelo pai nas férias para reencontrar o restante da família, de quem ele ficou distante por um ano. Apesar de ser cego, o garoto consegue perceber e decodificar o mundo que o cerca melhor do que todos os outros que estão à sua volta. Seu maior desafio, no entanto, é convencer o pai de que pode se virar sozinho e de que tem talento o suficiente para ir muito além de onde ele próprio conseguiu chegar... Tanto em Filhos do Paraíso, quanto em A Cor do Paraíso, as crianças são quem representam uma oportunidade de superação do contexto relativamente opressivo no qual todos estão inseridos. O curioso é que os adultos, presos aos seus dogmas, costumes e legalismos, não conseguem compreender isso e acabam colocando em risco aquilo que pode ser um último fio de esperança de que aconteça uma real mudança nas vidas de todos. Este viés também está presente em A Canção dos Pardais (2008), filme de Majid Majidi já resenhado aqui no Sublime


Bahman Ghobadi trilha um caminho bem diferente dos seguidos por Abbas Kiarostami e Majid Majidi, o realismo de seus filmes é mais seco e muito mais brutal. Suas obras retratam os absurdos dos conflitos armados e do terrorismo de uma forma direta, sem tantos atenuantes. Se outros cineastas citados conduzem à reflexão por meio de metáforas e de sutilezas, Ghobadi o faz pelo choque. Isso no entanto não tira de seus filmes a beleza estética e um certo lirismo que eles trazem consigo. Me perguntei várias vezes, enquanto assistia às suas obras, de onde vinha este lirismo; cheguei à conclusão de que ele vem do destaque que se dá à inocência e à esperança que ainda resistem em meio ao caos, aspecto presente nas duas obras assistidas. Tempo de Cavalos Bêbados (2000) retrata a realidade de atravessadores que cruzam as montanhas geladas da fronteira do Irã com o Iraque com produtos e/ou emigrantes ilegais. Ayoub (Ayoub Ahmadi) e Ameneh (Amaneh Ekhtiar-dini), os protagonistas, são apenas crianças, mas já trabalham em uma feira e dividem com o pai viúvo a responsabilidade pela criação dos outros três irmãos, dentre eles Madi (Madi Ekhtiar-dini), o caçula, que tem uma grave doença. Com a morte do pai eles se vêm obrigados a assumir todas as responsabilidades sozinhos e a necessidade os levam a se envolver com os grupos de atravessadores. 


Tartarugas Podem Voar (2004) também mantém o foco de sua narrativa sobre as crianças. Na história, Satellite (Soran Ebrahim) é um menino que lidera um grupo de crianças órfãs que desenterram minas para revendê-las. A trama, que se passa na fronteira entre o Irã e a Turquia, se desenvolve nos dias que antecedem a invasão americana ao Iraque. No vilarejo todos querem receber notícias sobre a guerra que se aproxima, Satellite propõe então que façam o mesmo que foi feito em outros vilarejos vizinhos, uma 'vaquinha' para comprar uma antena parabólica para sintonizar canais estrangeiros. Com a colaboração de quase todos e com a ajuda do tino que o garoto tem para os negócios, eles acabam conseguindo comprar uma antena por um bom preço (parte do pagamento é feito com minas desenterradas pelo grupo de garotos). As poucas notícias que chegam vão aumentando gradativamente a tenção, mas Satellite parece sentir um prazer estranho diante de tudo o que está acontecendo, ele nutre um certo fascínio pela cultura americana. Fascínio este que demora para ser desconstruído. 


Os três últimos filmes pertencem a cineastas diferentes - O Balão Branco (1995) de Jafar Panahi é uma das obras-primas do cinema iraniano, com sua trama minimalista, que remete às obras de Abbas Kiarostami, de quem Panahi já foi auxiliar de direção, ele consegue emocionar e chamar a atenção para questões que ainda minam a convivência humana, como a falta de diálogo, o egoísmo, a falta de perdão e, principalmente a incapacidade da maioria de estender a mão para alguém que precisa. No filme, a pequena Razieh (Aida Mohammadkhani) consegue convencer a mãe a lhe dar dinheiro para comprar um peixinho dourado para as comemorações do ano novo iraniano (uma antiga tradição no Irã), porém ela acaba perdendo o dinheiro no caminho até a loja. Ele reencontra a nota perdida, porém logo em seguida a perde novamente. Ela então descobre que a cédula caíra em um vão que dá no sub-solo de uma outra loja... Este é apenas o começo da odisseia da menina, que conta com a ajuda do irmão Ali (Mohsen Kafili), pouco mais velho que ela, para tentar recuperar o dinheiro. Sutilmente a trama fala ainda de solidão e desamparo, sentimentos que aparentam serem comuns entre os iranianos. 


Gabbeh (1996), de Mohsen Makhmalbaf, é puro lirismo, nele a fantasia se estende à cada uma das passagens, cada fotograma parece uma pintura. Com inúmeras referências à tradição, à religiosidade e aos costumes iranianos, o filme constitui um belíssimo tratado sobre prazer, a busca pelo amor idealizado, o envelhecimento, a dor da perda e principalmente sobre o decorrer de tempo, que corre inexorável e alheio às paixões e angústias. Eu diria que ele é também um filme de arte sobre a arte, sua trama fala justamente da forma com que a criação artística serve de expressão para as alegrias e as dores que vivenciamos. A história se inicia com um casal de idosos lavando um tapete persa em um rio. Uma linda moça, que aparenta sair do tapete, começa a contar para a casal a sua história; ela é apaixonada por um rapaz que frequentemente aparece em seu vilarejo à cavalo e apenas a observa de longe, um amor avassalador, porém impedido de se realizar pelas tradições seguidas pela família dela. No desenrolar da trama, as duas histórias se entrelaçam, a do casal de idosos (seria esta a realidade?) e a da jovem que anseia viver um amor desmedido (seria esta apenas uma abstração artística?). Gabbeh consegue ser ao mesmo tempo reflexivo e sensorial, é impossível não ser impactado de alguma forma por ele. 


A Maçã (1999) é o filme de estreia da cineasta Samira Makhmalbaf, filha de Mohsen Makhmalbaf. Na trama, duas garotas de 12 anos, Massoumeh (Massoumeh Naderi) e Zahra (Zahra Naderi), gêmeas, são mantidas presas pelos pais dentro da própria casa desde que nasceram. A prisão retardou seus desenvolvimentos intelectuais, elas não conseguem falar e na maioria das vezes não conseguem lidar com situações simples do cotidiano. Um vizinha decide então fazer um abaixo assinado pedindo a intervenção do Departamento de Bem Estar Social; este, representado por uma assistente social, passa a acompanhar a família e pouco a pouco as meninas vão conquistando uma liberdade que nunca tiveram. A genialidade do filme está na forma com que ele, num tom que chega a ser a ser quase documental, remete à origem dos vários tipos de prisões. Uma das passagens mais emblemáticas intercala cenas das meninas presas na casa onde moram com cenas da vizinha, a mesma que fez o abaixo assinado, torcendo roupas na janela de sua casa, em ambas situações as mulheres são retratadas atrás de grades. É a forma sutil da diretora de dizer que a prisão também pode ser a limitação imposta pela vida conjugal em um opressivo sistema patriarcal.


Confiram também aqui no Sublime Irrealidade as resenhas de outros filmes iranianos:

Gosto de Cereja (1997) de Abbas Kiarostami
A Separação (2011) de Asghar Farhadi

Confiram também o post sobre a maratona de cinema argentino: 



sábado, 3 de janeiro de 2015

Um breve, porém intenso, mergulho no cinema argentino!


Não foi algo planejado. Eu estava à procura do filme Relatos Selvagens (2014- coprodução entre Argentina e Espanha, escrita e dirigida pelo Damián Szifron, produzida pelo Almodóvar e com nomes como Ricardo Darín, Darío Grandinetti e Leonardo Sbaraglia no elenco - e, depois de algumas tentativas frustradas desisti de encontrá-lo, foi então que veio a ideia de colocar em dia, ao menos em parte, a enorme dívida que tenho com o cinema argentino. Minha intenção inicial era assistir a dez filmes, acabou sendo nove, pois não consegui encontrar legenda compatível para um deles. A maioria dos filmes assistidos foram lançados no início da década passada, o que não foi intencional, daria para fazer um passeio semelhante passando apenas por obras mais recentes. Esta seleção, no entanto, acabou sendo um reflexo daquele que foi um dos períodos mais prolíferos da cinematografia no país, o auge do 'movimento', surgido na década de 90, que ficou conhecido como Novo Cinema Argentino. 

Durante esta pequena maratona foi quase inevitável não fazer comparações entre o cinema argentino e o nosso. No tocante à qualidade das obras, acredito que temos uma produção tão prolífera e boa quanto a deles. A diferença está, não no processo artístico/criativo, mas no mercadológico. Os hermanos têm conseguido contornar problemas nos quais ainda tropeçamos, boa parte deles relacionado ao financiamento público da produção (geralmente feito através de políticas de incentivo) e à distribuição. A impressão que se tem é a de que os filmes de lá não visam apenas o mercado interno (diferente de boa parte daquilo que é produzido hoje no Brasil) e as melhores obras não ficam restritas apenas ao circuíto de mostras e festivais, como ainda acontece por aqui, o que indica que a industria cinematográfica se encontra em estágios de maturidade diferentes nos dois países. [Pretendo voltar à estas questões em um post específico]. 

Recomendo esta breve maratona para todos! Para iniciá-la, dispa-se da rivalidade tola que fora alimentada durante muito tempo entre os dois países, abra a sua alma e se permita ser impactado por ótimas produções de diferentes gêneros, com propostas diferentes, mas pertencentes a um todo, que daria orgulho a qualquer país! Abaixo seguem breves considerações sobre cada um dos filmes assistidos: 


Minha modesta maratona, que durou uma semana, foi iniciada com O Filho da Noiva (2001), uma pequena obra-prima de Juan José Campanella. O filme, que é o segundo da fruto da longeva e bem sucedida parceria do diretor com o ator Ricardo Darín, tem em sua composição dois dos grandes trunfos do cinema produzido pelos hermanos: a sensibilidade e a universalidade. No centro da história está Rafael (Darín), ele se formou em direito, mas acabou assumindo o restaurante do pai por não ter alcançado sucesso na carreira de advogado. Sobrecarregado por afazeres e responsabilidades,  ele ainda precisa lidar com problemas e conflitos familiares. A pressão é enorme, ele tenta segurar as pontas mas não resiste, o preço a ser pago vem na forma de um infarto, que o deixa por vários dias na UTI, período no qual ele se vê imersos em reflexões forçadas sobre a sua vida e as escolhas que fez. A oportunidade de Rafael encontrar alguma paz interior vem quando o seu pai, Nino (Héctor Alterio), anuncia que quer finalmente se casar na igreja com a sua mãe, Norma (Norma Aleandro); uma proposta ousada devido a um pequeno problema, Norma tem perda de memória, provocada pelo mal de alzheimer, e é incapaz de responder pelos seus atos. O desenrolar da história é uma verdadeira ode ao amor e à valorização dos pequenos prazeres. 


O segundo filme da maratona foi Nove Rainhas (2000), longa dirigido por Fabián Bielinsky, também protagonizado por Ricardo Darín. No centro de sua trama estão dois trapaceiros profissionais, Marcos (Darín) e Juan (Gastón Pauls), eles se conhecem quase que por acaso e decidem 'trabalhar' juntos por um dia. É justo neste dia que surge a oportunidade de aplicar um golpe milionário, que envolve a réplica de uma série de selos raros e um perigoso colecionador que está hospedado na cidade. A fluidez da narrativa, os diálogos afiados e as ótimas atuações dos protagonistas dão ao filme um diferencial que o distancia da grande maioria das obras do gênero que são realizadas atualmente. O último ato, que não comentarei pelo risco de entregar algum spoiler, só confirma aquilo que os primeiros já indicavam, trata-se de uma grande obra, que soube aproveitar da melhor forma possível uma boa história, sem para tal precisar recorrer a malabarismos técnicos e a firulas estilísticas desnecessárias. 


O filme seguinte foi Plata Quemada (2000), triller de Marcelo Piñeyro, baseado em fatos reais, que retrata a fuga de uma quadrilha de bandidos, que vão para o Uruguai após assaltarem um carro forte. O assalto não acontecera conforme o planejado e os dois policiais que estavam  veículo acabaram sendo mortos pelos bandidos. Movida pelo desejo de vingar a morte dos dois militares, a polícia local dá início à uma investigação para descobrir o paradeiro da quadrilha. Os próprios assaltantes reconhecem que é uma questão de tempo até que o local em que se refugiaram seja descoberto, no entanto eles decidem permanecer até que um aliado no Uruguai consiga documentos falsos para eles virem pra o Brasil. A trama é protagonizada por dois dos assaltantes, El Nene (Leonardo Sbaraglia ) e Ángel (Eduardo Noriega ), conhecidos no meio como 'os gêmeos'; apesar desta alcunha eles são bem diferentes um do outro, El Nene é racional e se porta como o cabeça do grupo, enquanto que Ángel se deixa guiar mais facilmente pela emoção, sendo movido frequentemente pela culpa que sente por ser um fora da lei e por manter um relacionamento homoafetivo com El Nene. A narrativa desenvolve de maneira muito satisfatórias os seus dois viés, o romântico/erótico, sustentado pelo relacionamento entre os dois personagens e o suspense, que coloca o filme em uma tensão sempre crescente, que se torna angustiante com a aproximação do último ato.


O quarto filme da maratona foi Lugares Comuns (2002), drama dirigido por Adolfo Aristarain que conta a história de um professor de literatura, já idoso, que é aposentado compulsoriamente devido às ideias que defende em sala de aula. Com o país passando por uma grave crise econômica, Fernando Robles (Federico Luppi), o protagonista, se vê obrigado a vender a casa em que mora e a pegar como parte do pagamento uma propriedade rural para onde se muda. O desenrolar da trama retrata o processo de adaptação do professor à nova vida, processo este que é retratado com uma singeleza enorme, que chama atenção não só pela tentativa do personagem de vencer suas limitações, mas também pela forma com que as suas ideias, quando postas em prática na história, acabam nos impactando. No último ato o filme perde um pouco de sua unidade, à partir de dado momento da narrativa ele abandona alguns dos conflitos que tinham sustentado a narrativa até então para se apegar a outros. Isso faz com que o desfecho soe um tanto forçado, como se tivesse sido construído de tal forma apenas para despertar no público algum tipo de comoção. Todavia, o filme continua acima da média e sendo uma boa pedida para quem valoriza atrativos que dificilmente seriam encontrados no cinema comercial. 


A História Oficial (1985) foi o próximo a ser assistido. Dirigido por Luis Puenzo, ele foi o primeiro filme latino-americano a ganhar o Oscar na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira. É sem dúvidas uma obra-prima, grandiosa em todos os aspectos: Roteiro, atuações (Norma Aleandro está sublime), fotografia, direção de arte, trilha sonora... Todavia, creio que o seu maior trunfo foi ter levado para a tela grande a discussão sobre um tema tão polêmico, tão recente na época, que ainda era uma ferida aberta na história da Argentina. Em sua trama, Alicia (vivida pela Norma) é uma professora de história que preza pela disciplina e pela ordem. Ela não percebe que o rigor de suas posições e a unilateralidade de sua visão sobre aquilo que ensina a têm distanciado da história real de seu país. Alienada das questões políticas e sociais ela se recusa a enxergar a cruel realidade que a ditadura militar representava. No entanto, a suspeita de que a menina, que adotara ainda bebê, possa ser filha de militantes políticos mortos pelo regime, começa mudar a visão que até então ela tinha. Como pano de fundo, o filme retrata a luta da Mães da Praça de Maio, mulheres que se uniram para lutar e reivindicar notícias sobre seus filhos desaparecidos durante a ditadura militar. 


O sexto filme da maratona foi outra obra de Juan José Campanella, O Mesmo Amor, a Mesma Chuva (1998), o primeiro fruto da parceria dele com Ricardo Darín. A trama acompanha o relacionamento entre os dois protagonistas, Jorge Pellegrini (Ricardo Darín) e Laura (Soledad Villamil), durante 20 anos, retratando as crises, os términos, os longos períodos de separação e também os bons momentos, que foi o que manteve uma centelha do sentimento inicial acesa por tanto tempo. Sem os clichês do cinema mainstrean, a narrativa nos apresenta a personagens complexos, dotados de vícios e virtudes, que muitas vezes erram tentando acertar e por isso acabam colocando em risco aquilo que têm de mais importante. Em uma análise mais ampla, eu diria que a história de amor contada funciona como uma metáfora daquilo que o país vivia em cada um dos períodos retratados; começa com a utopia, passa pela esperança (representada na esfera social pela abertura política) e por diversas crises, até chegar à uma espécie de maturidade, onde os problemas ainda não estão todos resolvidos, mas há a sabedoria que impede que erros do passado voltem a ser cometidos.


O sétimo da lista foi Um Conto Chinês (2011), filme dirigido por Sebastián Borensztein, que também traz Ricardo Darín no papel principal. Com sua trama construída sobre a ideia de que talvez exista um porquê associado a questões atribuídas ao acaso, o longa direciona o foco de sua narrativa para a vida monótona de Roberto (vivido por Darín), um homem ranzinza, mas de bom coração, que não faz nada além de administrar sua loja de ferragens. A rotina de Roberto muda completamente depois que seu caminho se cruza por acaso (será mesmo?) com o de Jun (Ignacio Huang), um jovem chinês que fora para a Argentina em busca de um tio com quem nunca teve qualquer tipo de contato. Sem saber uma palavra em Espanhol e sem ter lugar para ficar, Jun acaba sendo acolhido por Roberto. A chegada do rapaz mexe com o pacato comerciante e sutilmente muda a forma com que ele enxerga a si mesmo e o mundo à sua volta. Ao observar o rapaz, Roberto descobre que tem tanta dificuldade de se comunicar como ele, talvez venha daí a empatia que surge entre os dois, sentimento este que impactará a vida de ambos. 


Abraço Partido (2004) de Daniel Burman, o penúltimo filme da maratona, tem como pano de fundo a crise econômica que assolou a Argentina, sua história passa-se quase que totalmente no interior de uma galeria comercial, onde Ariel Makaroff (Daniel Hendler), o protagonista, trabalha. Ariel tenta tirar dupla cidadania (ele é descendente de poloneses) para conseguir finalmente deixar a Argentina e se mudar para a Europa. No entanto, o galho da árvore genealógica que pode o favorecer em sua tentativa de ter a cidadania polonesa aprovada, é o mesmo que o conduz à uma série de dúvidas sobre o seu passado. Seu pai, um judeu idealista, deixara a família pouco tempo depois dele nascer para se alistar no exército de Israel. A recusa da mãe e do irmão mais velho de tocar no assunto indica que pode haver algo que Ariel não sabe. O desenvolvimento da trama retrata a busca do jovem por informações que expliquem o fato do pai não ter voltado e o relacionamento dele com o que sobrou de sua família e com as outras pessoas que também trabalham na mesma galeria. O bom ritmo, a maneira com que diversas sub-tramas são costuradas e a ótima atuação de Hendler ajudam a tornar esta uma grande obra, digna de estar entre as melhores do Novo Cinema Argentino.


Crônica de uma Fuga (2006), dirigido por Adrián Caetano, o último da maratona, é baseado em fatos reais e tem sua trama ambientada durante o período em que a Argentina esteve sob uma ditadura militar. Claudio Tamburrini (Rodrigo de la Serna), o goleiro de um time argentino da segunda divisão, é sequestrado por agentes do governo e levado para uma antiga mansão, usada como campo de detenção e tortura. Lá um grupo de jovens é mantido em cativeiro e submetido a diversos tipos de tortura, métodos estes que são usados para arrancar deles confissões e dados sobre operações suspeitas e outros envolvidos com a militância política de esquerda. Claudio, que não tinha nenhum envolvimento com questões desta natureza, arquiteta junto com outros sequestrados um plano de fuga, que se torna uma última esperança para o grupo, que teme a pena mais alta aplicada pelo tribunal clandestino: a morte. O filme consegue retratar com realismo a angústia e o sofrimento vivenciado no local. A tensão criada pela trama chega a se tornar quase insuportável em alguns momentos. Trata-se, sem dúvidas, de uma grande obra, cujo valor transcende as questões meramente técnicas, é o tipo de história que precisa ser contada para que os erros do passado não voltem a ser cometidos. 

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Incêndios

Incêndios (Incendies) - 2010. Escrito e dirigido por Denis Villeneuve, baseado no texto original de Wajdi Mouawad, com a consultoria de Valérie Beaugrand-Champagne. Direção de Fotografia de André Turpin. Trilha Sonora Original de Grégoire Hetzel. Produzido por Luc Déry e Kim McCraw. Produtora: micro_scope / França | Canadá.


O pano de fundo de Incêndios (2010), filme dirigido pelo canadense Denis Villeneuve, é o conflito que há décadas assola o Oriente Médio. Por meio de uma história visceral, que vai de 1970 à 2009, o filme retrata a corrente de ódio que torna aparentemente interminável um conflito que é ao mesmo tempo étnico, religioso e, principalmente, político. Com uma abordagem seca e sem atenuantes, o filme expõe, tal como uma enorme ferida aberta, os diversos tipos de atrocidades cometidos por ambos os lados. Sem maniqueísmos e livre do excesso de dramatização característico do cinema mainstrean, a narrativa abre espaço para um realismo incômodo e extremamente angustiante. 

O desenrolar da trama se incia quando os gêmeos Jeanne (Mélissa Désormeaux-Poulin) e Simon Marwan (Maxim Gaudette) são comunicados sobre as últimas vontades da mãe, Nawal Marwan (Lubna Azabal), manifestas por meio de um testamento que ela deixara aos cuidados de seu ex-patrão, um oficial de um cartório de notas. Ela pede aos filhos que procurem o pai biológico e um irmão, que eles nem sabiam que tinham. De acordo com as instruções deixadas, eles deverão encontrar estes familiares e entregar a eles cartas deixadas por ela. À princípio apenas Jeanne se dispõe a atender estes últimos pedidos, o que a leva, sozinha, ao oriente médio (a um país não revelado na trama) em busca de informações sobre o passado da mãe e o paradeiro do restante da família. 


Através de sucessivas idas e vindas no tempo, o roteiro mergulha na surpreendente história de Nawa, que vai adquirindo ares de tragédia grega no decorrer de seu desenvolvimento. Quando jovem, a mãe de Jeanne e Nawal se envolvera na guerra entre radicais muçulmanos e cristãos, conflito que assolou a região em que ela vivia, destruindo a vida de um incontável número de pessoas, que morreram, foram presas ou expatriadas durante quase quatro décadas de confronto. As marcas deixadas por este envolvimento foram carregadas por ela até o fim de sua vida e, após sua morte, acabaram sendo legadas aos filhos, que se viram então obrigados a lidar com segredos dolorosos, verdades que nunca tinham sequer imaginado.



A narrativa se distancia ideologicamente do conflito e se aproxima dos personagens e das situações retratadas e isso acaba sendo o seu grande diferencial. Pode soar controverso, dada a frieza observada na condução da história, mas vejo Incêndios como um filme extremamente humanista e é justamente neste humanismo, presente em toda a sua trama, que se baseia a catarse que ele nos proporciona em seu último ato. Porém, diferente do anestésico social que representava na tragédia grega, a catarse funciona aqui mais como um convite à reflexão e à indagação dos porquês da perpetuação de uma realidade tão cruel e, aparentemente, destituída de qualquer senso humanitário...


Todo o elenco entrega atuações carregadas de verdade, condizentes com a visceralidade da trama e com a proposta do filme. Destaco o desempenho de Mélissa Désormeaux-Poulin que torna crível, através de sutilezas como expressões e olhares (principalmente olhares), o drama enfrentado por Jeanne, e o de Lubna Azabal, que se entrega de corpo e alma na composição de uma personagem que é extremamente complexa. O aparato técnico do filme também é soberbo, o que potencializa o impacto que a trama, por si só, já seria capaz de provocar. A composição da mise-en-scène trabalha de uma maneira muito interessante o contraponto entre ambientes claustrofóbicos (como uma cela, o interior de um ônibus e até mesmo escritórios) e outros abertos, mas igualmente aflitivos, que reforçam, através do destaque que se dá às marcas da destruição e à aridez da região, a sensação de que se trata de um meio totalmente inóspito.


A excelente montagem dá fluidez à trama, atenua a tenção e ajuda a localizar no espaço e no tempo a enorme quantidade de personagens e situações retratadas em pouco mais de duas horas de filme. Apesar de cobrir um longo espaço de tempo e da complexidade dos eventos retratados, o filme não aparenta ser demasiadamente superficial ou de difícil compreensão em nenhum momento, há um notável equilíbrio, mérito que atribuo à montagem e à decisão, muito bem sucedida, de focar as relações entre os personagens e não o apego a datas e fatos históricos. Destaco por fim o uso de duas músicas do Radiohead, 'Like Spinning Plates' e 'You and Whose Army?', que retratam perfeitamente a falta de sentido e a brutalidade das situações retratadas nos momentos em que são usadas... Não é nenhum exagero afirmar que Incêndios é uma obra-prima, um dos melhores filmes dos últimos anos.


Incêndios foi indicado ao Oscar na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira. 


Confiram também aqui no Sublime Irrealidade a crítica de Os Suspeitos (2013), também dirigido pelo Denis Villeneuve



A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

sábado, 22 de novembro de 2014

Boyhood: Da Infância à Juventude

Boyhood: Da Infância à Juventude (Boyhood) - 2014. Escrito e dirigido por Richard Linklater. Direção de Fotografia de Lee Daniel e Shane F. Kelly . Produzido por Richard Linklater, Jonathan Sehring, John Sloss e Cathleen Sutherland. Produtoras: IFC Productions e Detour Filmproduction / USA.


Boyhood de Richard Linklater é um fruto de uma proposta ousada, ele foi filmado durante 12 anos, o mesmo período que a sua trama transcorre. A ideia era reforçar o realismo da história contada, conferindo a ela uma maior credibilidade e maior aproximação em relação ao público, que tenderia a aceitar com maior facilidade a verossimilhança da narrativa, uma vez que não haveria nela o risco de tropeçar naquilo que boa parte dos filmes que percorrem um longo espaço temporal normalmente tropeçam, que é a habilidade de conseguir, através dos elementos de linguagem, convencer de que há de fato um deslocamento no tempo. Em Boyhood não há maquiagens ou efeitos especiais, nem tão pouco troca de atores para imprimir nos personagens as marcas da passagem dos anos, nada disso se faz necessário porque os atores envelhecem e se transformam junto com os seus personagens. E não é só os atores que se transformam, o mundo muda no decorrer do período de produção e o reflexo disso está presente no filme, da maneira mais natural possível.

Alguns críticos chegaram a afirmar que o convencionalismo do roteiro, escrito pelo próprio Linklater, não fez jus à ousadia conferida pelo formato inusitado, não discordo totalmente desta afirmação, porém, penso que é justamente aí que reside a sacada e o maior trunfo do filme. Na história não há nenhum grande drama, nenhum grande objetivo a ser alcançado e, pode-se dizer que nas quase três horas de duração do filme também não há nenhuma grande reviravolta, o que Boyhood retrata (de uma maneira soberba) é a própria vida e a forma com que ela avança, muitas vezes sem sentido e sem oferecer qualquer tipo de explicação para as mudanças com as quais nos vemos obrigados a lidar. Pode-se dizer que ele é um filme sobre os ritos de passagem (no plural mesmo) pelos quais todos nós passamos em diferentes fases de nossa vida... É antes de tudo um filme sobre o tempo e ele é um de seus principais personagens.


Já no primeiro ato do filme vemos os membros da família, em torno da qual a história gira, lidando com uma primeira peripécia, é apenas uma mudança para uma casa nova, mas esta pequena transformação já é o suficiente para que esbocem comportamentos que serão recorrentes durante quase todo o filme. Mason (Ellar Coltrane), o protagonista, sua mãe (Patricia Arquette) e sua irmã, Samantha (Lorelei Linklater), não sabem lidar com as mudanças que a vida lhes impõe e, por temerem as transformações, eles resistem a elas o máximo que podem. Em uma análise um pouco mais profunda, eu diria que o que os assusta é na verdade o simples decorrer do tempo, que insurge como o grande antagonista da história, um vilão capaz de separar pessoas queridas, destruir relacionamentos e dar à vida rumos diferentes daqueles que tinham sido planejados. 


Mason e Samantha atravessam no filme dois períodos de intensas mudanças, o primeiro deles é a passagem da infância para a adolescência e o segundo, que é retratado já perto do film do filme, é a passagem da adolescência para a vida adulta. Durante este tempo eles lidam com o distanciamento do pai divorciado (Ethan Hawke) e com as mudanças no seio familiar, descobrem os primeiros amores e o senso de responsabilidade e, complexos que são, se transformam como grupo e como indivíduosE não é só em Mason que podem ser observados os efeitos desta implacável ação do tempo, eles estão presentes em toda a família. Em maior ou menor grau, positiva ou negativamente, todos acabam afetados pelas transformações que vivenciam em casa, na escola, no grupo de amigos, no trabalho, ou nos relacionamentos. 


A mãe é afetada de uma maneira diferente, ela aparenta estar o tempo todo correndo contra o grande vilão da história, o tempo, para manter os filhos seguros e a família unida. Numa das passagens mais representativas do filme, ela se depara com o que acredita ser o fim de sua vida, a perda da corrida contra o tempo, que é representada pela independência dos filhos já crescidos e pela falta de um projeto pessoal para abraçar a partir de então, o seu drama é o de não mais conseguir se adequar ao tempo que está vivendo; na passagem em questão, o filho compreende isso e a repreende. Em outro momento emblemático do longa, o pai sentencia em tom reflexivo: "o tempo nos torna mais resistentes"; ele próprio é a prova disso na trama, no entanto esta sentença não pesa apenas sobre ele, é ela que impede cada um dos outros personagens de vergarem, em diversos momentos, diante da já citada ação do próprio tempo.


Boyhood tem a seu favor um atributos que mais admiro no cinema, que é o poder de retratar o trivial, o cotidiano e algo aparentemente não dotado de grande significação com um olhar diferenciado, capaz de evocar inúmeras reflexões e questionamentos sobre a nossa própria vida. O misto de nostalgia e de encantamento diante de uma realidade que nos é apresentada - que não é tão diferente da nossa própria - funciona como uma espécie de convite para revisitar as nossas próprias memórias e para uma reflexão sobre a forma com que nós mesmos estamos lidando com a passagem do tempo e com uma quase inevitável angústia existencial, advinda da noção de que tudo pode passar ou se desfazer em um piscar de olhos... 


Um aspecto que, obviamente, eu não poderia deixar de comentar é a trilha sonora, os nomes presentes dispensam qualquer comentário adicional sobre ela, no entanto, creio que seja necessário destacar que cada canção foi muito bem utilizada na trilha, constituindo um elemento da própria linguagem e não apenas um mero acompanhamento, no mais, resta dizer que estão nela nomes como Arcade Fire, Coldplay, The HivesGeorge HarrisonPaul McCartney, Daft PunkFoo FightersThe Flaming LipsGary GlitterVampire WeekendPhoenixKings of LeonBob DylanFoster the PeopleYo La Tengo e os brasileiros Moreno VelosoLuísa Maita



A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Wish I Was Here

Wish I Was Here - 2014. Dirigido por Zach Braff. Escrito por Zach Braff e Adam J. Braff. Direção de Fotografia de Lawrence Sher. Produzido por Zach Braff, Adam J. Braff, Michael Shamberg e Stacey Sher. Produtoras: Worldview Entertainment, Double Feature Films e Wild Bunch / USA.


Como reagir em um daqueles momentos em que tudo aparenta estar fora de seu devido lugar e a vida nos surpreende com peripécias que parecem estar muito além daquilo que conseguimos suportar? Esta questão é o alicerce da trama de Wish I Was Here (ainda sem título nacional), o novo filme dirigido por Zach Braff. Diferente do que o seu mote sugere, não se trata tão somente de um drama, aqui, tal como em seu primeiro longa, Hora de Voltar (2004), Braff consegue a proeza de dosar na medida certa o trágico e o cômico e o resultado é uma obra que encanta e que emociona sem perder em momento algum a leveza, que se sobressai em situações inusitadas, diante das quais um riso, que chega a ser inocente, é quase inevitável. 

Seguindo o que considero ser uma tendência no cinema indie americano atual, Wish I Was Here retrata em sua trama uma América bem diferente daquela que Hollywood sempre mostrou; distante do padrão "terra das oportunidades", o que vemos aqui é um país de oportunidades minguadas, ainda assolado pelo fantasma do desemprego. É neste contexto que Aidan Bloom (vivido pelo próprio Zach Braff), o personagem central, está inserido. Ele é casado, pai de dois filhos e está desempregado. Aspirante a ator, ele ainda espera conseguir um papel de destaque e enquanto isso tenta sobreviver de pequenos trabalhos em comerciais. Sua esposa, Sarah (Kate Hudson), se torna a provedora da casa e, mesmo sendo frequentemente assediada por um colega de trabalho, ela se mantém no emprego para não tirar do marido a chance de viver um sonho cada vez mais distante, que ele continua a alimentar. 


A situação se complica ainda mais quando Gabe (Mandy Patinkin), o pai de Aidan, descobre que está com uma doença terminal, ele decide se submeter a um tratamento experimental que é bem caro e por isso deixa de ajudar no pagamento do colégio das netas. O protagonista se vê então diante de duras missões: conseguir um emprego rentável, reunir a família que está se desintegrando, não deixar que os filhos sejam obrigados a ir para a escola pública e ainda dar todo o suporte que o pai precisa. O problema é que ele não tem a mínima ideia de como fazer tudo isso e a sua falta de jeito no trato com estas situações torna cada tarefa ainda mais difícil. Durante o desenvolvimento do filme, é interessante notar o destaque que os enquadramentos dão para o rosto cansado e as rugas já salientes de Aidan; o fato dele já não ser tão jovem é apenas mais um complicativo, que atenua seu drama. 


Temas ásperos como a proximidade da morte, a desestruturação familiar e a crise econômica são retratados pelo filme com uma sutileza tamanha, que pode ser facilmente confundida com despretensão, ledo engano, afinal Braff demonstra ter plena ciência de onde quer chegar, sabiamente ele costura situações que, destituídas da sutileza, poderiam ser facilmente confundidas com um amontoado de clichês; aqui no entanto elas compõem um retrato tragicômico da atual situação dos Estados Unidos; situação esta que é marcada não só pela crise econômica, mas também pela crise de referenciais (tão bem exploda em uma das instituições retratadas no filme: o colégio judeu ortodoxo onde os filhos de Aidan estudam).   


Wish I Was Here provavelmente não figurará nas listas de melhores do ano, não será indicado a prêmios importantes para a indústria cinematográfica e tão pouco será apontado como uma obra-prima. Ele, no entanto, tem a seu favor a capacidade de cativar pela simplicidade e este pode ser o seu grande trunfo para envelhecer tão bem como Hora de Voltar... Destaco a ótima trilha sonora, composta  por nomes como Cat Power e ColdplayBob DylanThe Shins (como já era de se esperar) e os brasileiros do Bonde do Rolê; e o ritmo bem conduzido, que faz com que seu tempo de duração passe em um piscar de olhos. 

Curiosidade: A produção do filme, que custou dois milhões de dólares, foi realizada com o apoio do próprio público por meio de uma campanha de crowd funding (forma de financiamento coletivo). 


Assistam ao trailer de Wish I Was Here no You Tube, clique AQUI !


Confiram também aqui no Sublime Irrealidade a crítica de Hora de Voltar (2004), também dirigido pelo Zach Braff. 

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

sábado, 10 de maio de 2014

A Professora de Piano

A Professora de Piano (La Pianiste) - 2001. Escrito e dirigido por Michael Haneke, baseado na obra de Elfriede Jelinek. Direção de Fotografia de Christian Berger. Produzido por Veit Heiduschka. Produtoras: Les Films Alain Sarde, MK2 Productions, Wega Film, Arte France Cinéma e Österreichischer Rundfunk (ORF) / França | Alemanha.


O maior risco que se corre diante de um filme complexo como A Professora de Piano (2001) de Michael Haneke é o de avaliá-lo de forma reducionista, tomando como critério apenas os seus aspectos mais aparentes. É em parte devido a isso que, nos anos que seguiram seu lançamento, o filme se tornou vítima da repulsa de muitos críticos e cinéfilos que o consideraram uma obra agressiva demais. Todavia, a pressuposta agressividade de algumas sequências se torna um detalhe pequeno diante da profundidade dos temas que ele aborda, mas, se tal profundidade não for percebida ou for negligenciada sobra apenas aquilo que está na superfície. A percepção limitada dos significados realmente pode tornar a experiência de assisti-lo ainda mais incômoda - neste ponto, vale lembrar que a compreensão dos temas abordados, no entanto, não torna esta experiência menos angustiante, principalmente se chegarmos à conclusão de que aquilo que nos é mostrado, apesar de ser uma situação extrema, é o resultado de questões existenciais e de aspectos presentes nos relacionamentos que não nos são totalmente estranhos. 

Classifico A Professora de Piano como um filme sobre relações de dominação e os conflitos que elas provocam nos relacionamentos interpessoais e no psicológico de cada indivíduo. Para que eu possa tentar explicar tal interpretação, é necessário primeiro comentar quem é a personagem central, e relembrar alguns de seus relacionamentos e o meio social no qual ela está inserida. Erika Kohut (Isabelle Huppert), a professora à qual o título do filme no Brasil se refere, é uma mulher de meia idade que vive com a mãe (Annie Girardot) em um pequeno apartamento. Especialista nas obras de Schubert e Schumann, ela é respeitada por todos no conservatório em que trabalha. Sua rigidez no trato com os alunos evidencia o seu perfeccionismo e sua dedicação extrema aquilo que faz. Com certa maestria, ela consegue intercalar sua vida social em um meio repleto de pompa e circunstância e suas incursões por um submundo de depravação, no qual ela mergulha em busca por prazeres doentios.


A chegada de um novo aluno, Walter Klemmer (Benoît Magimel), faz com que Erika vislumbre a possibilidade de finalmente vivenciar algumas de suas fantasias. O jovem rapaz não consegue esconder a paixão que sente por ela e a aparente submissão no qual este ardente sentimento o coloca o torna um alvo em potencial para os jogos que ela anseia por em prática. À princípio, Erika se nega a ceder às vontades de Walter, mas logo em seguida ela o coloca de volta no controle (ainda que de forma relativa), ao entregar para ele uma lista daquilo que ela espera que ele faça com ela. Similar a um manual de masoquismo, esta lista contém o passo-a-passo de jogos sexuais repletos de violência. Ao entregar a a lista, a professora pede que durante a realização dos jogos a sua vontade seja completamente ignorada e que seu atos contrários ao roteiro combinado sejam impedidos e/ou silenciados, ainda que de forma violenta, se necessário.

A análise da relação de Erika com sua mãe é o ponto de partida para que se possa compreender alguns de seus atos; não é por acaso que filme tenta deixar evidente, já em sua primeira sequência, os conflitos presentes neste relacionamento. Aqui se constrói a primeira relação de domínio presente na trama: apesar de já ser adulta Erika continua sendo tratada pela mãe como uma adolescente que precisa ter seus atos vigiados e sua vontade silenciada. Totalmente submissa, a pianista se vê diante de uma situação com a qual não sabe lidar. Apesar de tudo, nota-se que ela ainda sente um amor um tanto distorcido pela mãe e é este amor que a torna tão vulnerável e suscetível à culpa que lhe corrói em diversos momentos. É a ânsia de se libertar deste julgo que a leva a tentar construir outras relações de domínio, nas quais possa ocupar posições diferentes. Curiosamente, a primeira destas relações se dá com a música (o ato de tocar pode ser analisado aqui como o exercício do domínio sobre o próprio corpo e sobre os próprios sentimentos). 


No entanto, a música é apenas uma válvula de escape incapaz de libertar Erika da influência exercida pela progenitora e é então que a subversão surge como um caminho possível. Mas, as incursões pelo submundo apenas alimentam e potencializam aquilo que ela sente e lhe indicam a urgência de quebrar o julgo imposto pela mãe. É então que Walter entra na história e tem início a mais complexa de todas as relações. É interessante observar que a princípio o rapaz acredita ter controle sobre o relacionamento que se inicia entre os dois, mas, logo a professora reivindica este controle para si, para em seguida devolvê-lo ao rapaz. Ela acredita poder se livrar da influência materna se subjugando a alguém capaz de exercer sobre ela uma força maior, ainda mais opressiva, alguém criado e controlado (aqui está o ponto mais interessante) por ela mesma. 


Walter chama a atenção de Erika não apenas por sua virilidade, mas principalmente por causa da liberdade irrestrita que seus atos representam, ele quebra regras, não se coloca sob o domínio de ninguém e tem plena confiança em si mesmo (o que pode ser notado na avaliação que ele faz para entrar no conservatório), tudo isso, aliado ao seu ponto fraco - que é representado pela paixão que ele sente - o torna a pessoa ideal para viver os jogos sexuais propostos por ela, ele é a pessoa perfeita para desempenhar o papel esperado por ela na relação de domínio que ela pretende criar. Ela imagina poder transferir para ele domínio exercido pela mãe e acredita exercer controle o suficiente para romper esta relação quando os jogos chegarem ao fim. Mas, algo dá errado, toda a virilidade do rapaz parece cair por terra no momento em que ele lê a carta com o roteiro proposto por ela, por medo ele recua alguns passos e este é o primeiro indicativo de que algo pode dar errado e o resultado pode ser não ser o esperado por ela.


Michael Haneke constrói e correlaciona tudo, do roteiro adaptado aos elementos técnicos, de uma forma magistral. Nenhum elemento ou personagem é descartável na trama, tanto que a questão da dominação, que vejo como o mote principal da história contada, pode ser observada até mesmo nas relações entre personagens secundários. É curioso observar que apenas em uma passagem o ato sexual é mostrado de forma explicita no filme e isso acontece em uma cena que mostra a protagonista assistindo vídeos pornográficos em uma cabine; entendo isso como uma maneira sutil do cineasta de dizer que naquele filme que a personagem assiste o foco é o ato sexual em si, enquanto no dele o foco está sobre questões bem mais complexas, questões estas que o ato por si só é incapaz de retratar (apesar de ser através dele que a protagonista ensaia sua libertação na trama).


Isabelle Huppert está monstruosa na pela da protagonista, sua composição é visceral, o que confere um alto grau de realismo e consequentemente de credibilidade aquilo que sua personagem sente e vive. Annie Girardot e Benoît Magimel também entregam composições muito bem trabalhadas, que também chamam a atenção pelo realismo, o que chega a ser assustador dada a força que possui algumas das sequência nas quais eles contracenam com Huppert. A trilha sonora também merece destaque, fugindo dos caminhos óbvios como lhe é característico, Haneke opta também neste filme apenas pelo uso da trilha sonora diegética e este é um outro elemento que reforça o realismo da trama e seu intento de apelar mais para o racional do que para o sensorial. 


Não ouso recomendar A Professora de Piano para todos, justamente por saber que muitos negligenciarão a profundidade de sua trama e se aterão à superficialidade daquilo que é mostrado na tela, mas não tenho dúvidas de que estou diante do tipo raro de filme que mantém vivo o meu tesão de escrever sobre cinema: o tipo que transcende os limites da linguagem cinematográfica e explora todo o potencial filosófico e reflexivo que a sétima arte ainda possui... 


A Professora de Piano ganhou em Cannes os prêmios de Melhor Ator (Benoît Magimel), Melhor Atriz (Isabelle Huppert) e o Grande Prêmio do Juri. 

Assistam ao trailer de A Professora de Piano no You Tube, clique AQUI !

Confiram também aqui no Sublime Irrealidade as críticas de Amour (2012), A Fita Branca (2009) Caché (2005), também dirigidos pelo Michael Haneke.

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.