sábado, 10 de maio de 2014

A Professora de Piano

A Professora de Piano (La Pianiste) - 2001. Escrito e dirigido por Michael Haneke, baseado na obra de Elfriede Jelinek. Direção de Fotografia de Christian Berger. Produzido por Veit Heiduschka. Produtoras: Les Films Alain Sarde, MK2 Productions, Wega Film, Arte France Cinéma e Österreichischer Rundfunk (ORF) / França | Alemanha.


O maior risco que se corre diante de um filme complexo como A Professora de Piano (2001) de Michael Haneke é o de avaliá-lo de forma reducionista, tomando como critério apenas os seus aspectos mais aparentes. É em parte devido a isso que, nos anos que seguiram seu lançamento, o filme se tornou vítima da repulsa de muitos críticos e cinéfilos que o consideraram uma obra agressiva demais. Todavia, a pressuposta agressividade de algumas sequências se torna um detalhe pequeno diante da profundidade dos temas que ele aborda, mas, se tal profundidade não for percebida ou for negligenciada sobra apenas aquilo que está na superfície. A percepção limitada dos significados realmente pode tornar a experiência de assisti-lo ainda mais incômoda - neste ponto, vale lembrar que a compreensão dos temas abordados, no entanto, não torna esta experiência menos angustiante, principalmente se chegarmos à conclusão de que aquilo que nos é mostrado, apesar de ser uma situação extrema, é o resultado de questões existenciais e de aspectos presentes nos relacionamentos que não nos são totalmente estranhos. 

Classifico A Professora de Piano como um filme sobre relações de dominação e os conflitos que elas provocam nos relacionamentos interpessoais e no psicológico de cada indivíduo. Para que eu possa tentar explicar tal interpretação, é necessário primeiro comentar quem é a personagem central, e relembrar alguns de seus relacionamentos e o meio social no qual ela está inserida. Erika Kohut (Isabelle Huppert), a professora à qual o título do filme no Brasil se refere, é uma mulher de meia idade que vive com a mãe (Annie Girardot) em um pequeno apartamento. Especialista nas obras de Schubert e Schumann, ela é respeitada por todos no conservatório em que trabalha. Sua rigidez no trato com os alunos evidencia o seu perfeccionismo e sua dedicação extrema aquilo que faz. Com certa maestria, ela consegue intercalar sua vida social em um meio repleto de pompa e circunstância e suas incursões por um submundo de depravação, no qual ela mergulha em busca por prazeres doentios.


A chegada de um novo aluno, Walter Klemmer (Benoît Magimel), faz com que Erika vislumbre a possibilidade de finalmente vivenciar algumas de suas fantasias. O jovem rapaz não consegue esconder a paixão que sente por ela e a aparente submissão no qual este ardente sentimento o coloca o torna um alvo em potencial para os jogos que ela anseia por em prática. À princípio, Erika se nega a ceder às vontades de Walter, mas logo em seguida ela o coloca de volta no controle (ainda que de forma relativa), ao entregar para ele uma lista daquilo que ela espera que ele faça com ela. Similar a um manual de masoquismo, esta lista contém o passo-a-passo de jogos sexuais repletos de violência. Ao entregar a a lista, a professora pede que durante a realização dos jogos a sua vontade seja completamente ignorada e que seu atos contrários ao roteiro combinado sejam impedidos e/ou silenciados, ainda que de forma violenta, se necessário.

A análise da relação de Erika com sua mãe é o ponto de partida para que se possa compreender alguns de seus atos; não é por acaso que filme tenta deixar evidente, já em sua primeira sequência, os conflitos presentes neste relacionamento. Aqui se constrói a primeira relação de domínio presente na trama: apesar de já ser adulta Erika continua sendo tratada pela mãe como uma adolescente que precisa ter seus atos vigiados e sua vontade silenciada. Totalmente submissa, a pianista se vê diante de uma situação com a qual não sabe lidar. Apesar de tudo, nota-se que ela ainda sente um amor um tanto distorcido pela mãe e é este amor que a torna tão vulnerável e suscetível à culpa que lhe corrói em diversos momentos. É a ânsia de se libertar deste julgo que a leva a tentar construir outras relações de domínio, nas quais possa ocupar posições diferentes. Curiosamente, a primeira destas relações se dá com a música (o ato de tocar pode ser analisado aqui como o exercício do domínio sobre o próprio corpo e sobre os próprios sentimentos). 


No entanto, a música é apenas uma válvula de escape incapaz de libertar Erika da influência exercida pela progenitora e é então que a subversão surge como um caminho possível. Mas, as incursões pelo submundo apenas alimentam e potencializam aquilo que ela sente e lhe indicam a urgência de quebrar o julgo imposto pela mãe. É então que Walter entra na história e tem início a mais complexa de todas as relações. É interessante observar que a princípio o rapaz acredita ter controle sobre o relacionamento que se inicia entre os dois, mas, logo a professora reivindica este controle para si, para em seguida devolvê-lo ao rapaz. Ela acredita poder se livrar da influência materna se subjugando a alguém capaz de exercer sobre ela uma força maior, ainda mais opressiva, alguém criado e controlado (aqui está o ponto mais interessante) por ela mesma. 


Walter chama a atenção de Erika não apenas por sua virilidade, mas principalmente por causa da liberdade irrestrita que seus atos representam, ele quebra regras, não se coloca sob o domínio de ninguém e tem plena confiança em si mesmo (o que pode ser notado na avaliação que ele faz para entrar no conservatório), tudo isso, aliado ao seu ponto fraco - que é representado pela paixão que ele sente - o torna a pessoa ideal para viver os jogos sexuais propostos por ela, ele é a pessoa perfeita para desempenhar o papel esperado por ela na relação de domínio que ela pretende criar. Ela imagina poder transferir para ele domínio exercido pela mãe e acredita exercer controle o suficiente para romper esta relação quando os jogos chegarem ao fim. Mas, algo dá errado, toda a virilidade do rapaz parece cair por terra no momento em que ele lê a carta com o roteiro proposto por ela, por medo ele recua alguns passos e este é o primeiro indicativo de que algo pode dar errado e o resultado pode ser não ser o esperado por ela.


Michael Haneke constrói e correlaciona tudo, do roteiro adaptado aos elementos técnicos, de uma forma magistral. Nenhum elemento ou personagem é descartável na trama, tanto que a questão da dominação, que vejo como o mote principal da história contada, pode ser observada até mesmo nas relações entre personagens secundários. É curioso observar que apenas em uma passagem o ato sexual é mostrado de forma explicita no filme e isso acontece em uma cena que mostra a protagonista assistindo vídeos pornográficos em uma cabine; entendo isso como uma maneira sutil do cineasta de dizer que naquele filme que a personagem assiste o foco é o ato sexual em si, enquanto no dele o foco está sobre questões bem mais complexas, questões estas que o ato por si só é incapaz de retratar (apesar de ser através dele que a protagonista ensaia sua libertação na trama).


Isabelle Huppert está monstruosa na pela da protagonista, sua composição é visceral, o que confere um alto grau de realismo e consequentemente de credibilidade aquilo que sua personagem sente e vive. Annie Girardot e Benoît Magimel também entregam composições muito bem trabalhadas, que também chamam a atenção pelo realismo, o que chega a ser assustador dada a força que possui algumas das sequência nas quais eles contracenam com Huppert. A trilha sonora também merece destaque, fugindo dos caminhos óbvios como lhe é característico, Haneke opta também neste filme apenas pelo uso da trilha sonora diegética e este é um outro elemento que reforça o realismo da trama e seu intento de apelar mais para o racional do que para o sensorial. 


Não ouso recomendar A Professora de Piano para todos, justamente por saber que muitos negligenciarão a profundidade de sua trama e se aterão à superficialidade daquilo que é mostrado na tela, mas não tenho dúvidas de que estou diante do tipo raro de filme que mantém vivo o meu tesão de escrever sobre cinema: o tipo que transcende os limites da linguagem cinematográfica e explora todo o potencial filosófico e reflexivo que a sétima arte ainda possui... 


A Professora de Piano ganhou em Cannes os prêmios de Melhor Ator (Benoît Magimel), Melhor Atriz (Isabelle Huppert) e o Grande Prêmio do Juri. 

Assistam ao trailer de A Professora de Piano no You Tube, clique AQUI !

Confiram também aqui no Sublime Irrealidade as críticas de Amour (2012), A Fita Branca (2009) Caché (2005), também dirigidos pelo Michael Haneke.

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Renoir

Renoir - 2013. Dirigido por Gilles Bourdos. Escrito por Gilles Bourdos, Jérôme Tonnerre e Michel Spinosa, baseado na obra de Jacques Renoir. Direção de Fotografia de Ping Bin Lee. Música Original de Alexandre Desplat. Produzido por Olivier Delbosc e Marc Missonnier. Fidélité Films / França.


O que é capaz de conferir valor artístico à uma determinada obra? Alguns dirão que é tão somente o olhar de quem a contempla. Outros dirão que basta a intenção do autor. Eu, porém, acredito que tal valor nasce é do diálogo que se dá entre o público (personificado por cada indivíduo que o compõe) e o artista, tendo a obra como canal. Penso que se este diálogo não existe, o valor artístico também não. Tal pressuposto explica o fato de que uma mesma obra possa ter um valor incalculável para uma pessoa e, ao mesmo tempo, ser absolutamente descartável para outra. Ao nos colocarmos diante de uma obra de arte, levamos junto uma enorme bagagem, dentro da qual estão nossos sentimentos, nossas experiências e toda a singularidade da forma com que enxergamos e interpretamos o mundo à nossa volta, em última instância, é esta bagagem que ditará o tom deste diálogo.

Em algumas situações o processo de comunicação supracitado acontece de forma fluída e sem tantos ruídos, já em outras há a intervenção de fatores (internos e/ou externos à cada uma das partes) que influenciam na mensagem que está sendo decodificada. Quando isso acontece há uma boa chance de que a mensagem recebida pelo indivíduo que contempla a obra não seja a mesma que fora emitida pelo artista, o valor artístico, todavia, não é necessariamente afetado quando isso acontece. Ouso dizer que é a presença de tais ruídos, que convertem a mensagem original em outras novas mensagens, adaptáveis ao olhar de cada um, é o que torna a experiência artística tão sublime e interessante de ser analisada. A cinebiografia Renoir (2013), dirigida por Gilles Bourdos, aborda em sua trama diversas questões que estão associadas a este diálogo tramado entre o artista e seu público. 



O filme retrata os últimos anos da vida do pintor francês Pierre-Auguste Renoir, período no qual ele esteve recluso em sua imensa propriedade, que era quase um oásis em meio ao terror proporcionado pela primeira grande guerra. O foco da narrativa se encontra sobre os relacionamento de Renoir (Michel Bouquet) com sua musa, a jovem e bela Andrée Heuschling (Christa Theret), e seus filhos, o futuro cineasta Jean Renoir (Vincent Rottiers) e o rebelde Coco Renoir (Thomas Doret). Como pano de fundo, o longa retrata a criação de algumas das obras mais belas do artista, cuja sensibilidade parece ter sido aguçada pelo avanço da doença degenerativa que tem e pela ciência da proximidade da morte. O filme é quase uma ode à beleza, tanto àquela que pode ser encontrada na natureza, quanto àquela que vem à existência através da criação artística.



A questão acerca do valor atribuído à arte, que está presente do início ao fim do filme, ganha expressão no comportamento e nas atitudes de cada um dos personagens. Coco não consegue enxergar beleza alguma nas obras pintadas pelo pai, traumatizado pelos horrores da guerra, ele cria sua própria forma de expressão, que só tem valor e significado para ele mesmo. Em Jean, se materializa a paixão pela arte, que se manifesta em um misto de respeito, admiração e curiosidade, é evidente que ele tem o pai como uma referência e isso certamente influenciaria no futuro a sua própria obra. Andrée, por sua vez, não consegue fazer um mergulho tão profundo nas obras, à princípio o que desperta seu interesse é apenas a beleza estética e a oportunidade de se juntar a alguém respeitado no meio artístico. 



A visão do próprio Pierre-Auguste Renoir é, no entanto, a mais interessante, ele enxerga a criação artística como um mero ofício, em dado momento ele chega à compara-la à carpintaria e outros trabalhos manuais. Estas  visões distintas acerca da arte constitui um dos aspectos mais interessante do filme, que é capaz de evocar inúmeras reflexões sobre o tema. Outra reflexão pertinente surge da dicotomia entre a arte, apresentada como um ato de criação e vida, e a guerra, que seria a oposição de tudo isso, representando portanto a destruição e a morte. Em dada passagem, o pintor lamenta a a ida de um dos filhos para a guerra e sentencia que quem deveria ir para o front não são os jovens, mas os velhos e enfermos. Tal reflexão me leva a crer que a arte se tornara para ele uma motivação para se manter vivo e para não se tornar uma vítima de sua própria sentença, acabando assim em guerra travada contra si mesmo...



Renoir não foi tão bem recebido pelo crítica nem pelo público, em parte devido ao convencionalismo evidente do desenrolar de sua trama, que evoca diversos lugares comuns que geralmente associamos às produções hollywoodianas. Todavia, o seu valor não se encontra na trama nem nos acontecimentos presentes em seu desenvolvimento, mas sim nas entrelinha, nos momentos de silêncio e contemplação, nas questões que são levantas em cada diálogo e nas considerações feitas por cada um dos personagens; e aqui cabe a mesma reflexão que propus no início desta resenha: o valor artístico de Renoir se encontra é justamente no diálogo que ele é capaz de estabelecer com cada um de nós espectadores, diálogo este que pode culminar em uma profunda reflexão sobre a natureza da arte e os processos de criação e apreciação. 



Destaco as boas atuações (Michel Bouquet está excelente) e todo o aparato técnico do filme. Os primorosos trabalhos de fotografia, figurinos, maquiagem e direção de arte conferem ao longa uma incrível beleza visual, que constitui por si só um convite à contemplação. A trilha sonora de Alexandre Desplat também merece destaque, apesar dele recorrer em alguns momentos à uma dramatização característica de compositores como John Williams, suas canções não soam em nenhum momento apelativas ou enfadonhas, elas ajudam a ditar o ritmo e tom reflexivo que o filme adquire em diversas passagens. Não creio que Renoir seja um filme impecável, nem tão pouco pode ser considerado uma obra prima de seus realizadores, mas ainda o vejo como um bom drama biográfico com algo a mais e, neste caso, este algo a mais pode fazer toda a diferença.



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A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Azul é a Cor Mais Quente

Azul é a Cor Mais Quente (La vie d'Adèle) - 2013. Dirigido por Abdellatif Kechiche . Escrito por Abdellatif Kechiche e Ghalia Lacroix, baseado na comic book de Julie Maroh. Direção de Fotografia de Sofian El Fani. Produzido por Brahim Chioua, Abdellatif Kechiche e Vincent Maraval. Quat'sous Films e Wild Bunch / França | Bélgica | Espanha.



Adèle (Adèle Exarchopoulos), que até então nunca tinha ficado com outra garota, teve algo despertado dentro de si logo na primeira vez que viu Emma (Léa Seydoux), ela fora tomada por um sentimento desconcertante, que a fizera perder o chão por alguns minutos. Ainda que haja um certo ceticismo em relação ao amor à primeira vista, pode-se afirmar que foi desta forma que nasceu a paixão que transformaria completamente sua vida em um espaço de tempo relativamente curto. Não demorou muito até que as duas se conhecessem, o que se deu quase ao acaso. É interessante perceber que já no primeiro encontro são assumidos alguns papéis que iriam determinar os rumos da relação que se iniciaria entre elas. Emma, mais velha e experiente, assume uma função de protetora, uma quase mentora de Adèle, esta por sua vez se entrega de corpo e alma à paixão que queima dentro de si e a intensidade desta entrega à torna relativamente vulnerável quando começam as primeiras crises no relacionamento.

Nas relações entre as garotas e seus amigos e familiares também é possível notar a extensão dos papéis que foram assumidos no dia em que se conheceram. Emma é bem resolvida, seus pais tratam com naturalidade a sua sexualidade, sem qualquer tipo de preconceito, e seus amigos a aceitam tal como ela é. Já Adèle não consegue conversar com seus pais sobre sua relação com Emma e as piadas e de suas amigas sobre sua suposta amizade com a 'garota dos cabelos azuis' a impede de abrir o jogo com elas também. Em uma evidente ânsia de se resguardar, ela se esconde e adota uma personalidade que não condiz com a sua verdadeira essência. Este é um traço da personalidade de Adèle que não está relacionado apenas à sua homossexualidade, em dado momento ela diz ter receio de compartilhar seus escritos por eles serem pessoais demais. Nota-se que o que ela está vivendo não é só um processo de descobertas, é também um processo de autoaceitação.



Não é por acaso que o filme tenha sido dividido em dois capítulos (que acabaram sendo lançados juntos), a sua história pode ser dividida em dois momentos bem distintos um do outro. O primeiro é caracterizado pela descoberta, nele vemos a transformação da paixão avassaladora que uniu Adèle e Emma em algo mais sólido, este processo é retratado de uma forma brilhante pelo filme. Neste primeiro capítulo a ingenuidade, a fragilidade e a insegurança podem ser apontados como os traços que melhor caracterizam o comportamento da protagonista. Ela ainda carrega consigo os medos e os dilemas típicos da adolescência, mas isso logo mudará. Em um segundo momento, Adèle passará por um amadurecimento forçado, que mudará completamente sua postura em relação ao mundo à sua volta e por fim sua visão sobre os relacionamentos.


Com o surgimento das primeiras crises a idealização criada em torno do relacionamento começa a se desfazer em um processo que é extremamente doloroso, principalmente para Adèle. A sucessão de erros cometidos por ambas as garotas torna a relação cada vez mais complicada e nenhuma delas consegue lidar tão bem com isso. A abordagem adotada pelo filme se abstém do olhar romantizado para retratar os relacionamentos tal como eles são, os problemas enfrentados pelas duas e os temores que elas sentem são extremamente comuns e a verdade é qualquer relação, por mais sólida que ela seja, sempre estará sujeita a ser afetada por eles. A trama de Azul é a Cor Mais Quente ganha ainda mais significado e profundidade por conseguir evocar diversas características atribuídas aos relacionamentos pós-modernos, nela podem ser observados aspectos como a fragilidade dos laços criados, a transitoriedade das relações e, principalmente, a angústia de projetar no outro aquilo que se espera da vida a dois.


As cenas de sexo explícito, que causaram bastante polêmica quando o filme foi lançado, são condizentes com a trama e eu diria até que são necessárias para o seu pleno funcionamento, afinal de contas é através delas que a narrativa trabalha as mudanças (boa parte delas sutis) que ocorrem no relacionamento entre as duas garotas e a forma com que estas mudanças impactam na relação de dominação que existe entre elas. A primeira transa entre elas, retratada em uma sequência que dura mais de seis minutos, retrata perfeitamente o processo de descoberta que se encontra em curso, o ato é selvagem e nele está evidente a explosão da paixão que ambas sentem. Porém, pouco a pouco, as sutilezas e as carícias vão ganhando mais espaço, o que indica que o sentimento primitivo, observado até então, estava finalmente se transformando em amor.


O curioso é que mesmo com o evidente amadurecimento do relacionamento, a relação de dominação é mantida, o que pode ser percebido em uma outra cena de sexo (aquela que considero a mais bonita do filme), em dado momento Emma interrompe o ato por acreditar que Adèle gritaria devido ao orgasmo, o barulho certamente chamaria a atenção de seus pais (esta é a primeira vez que elas transam na casa de Adèle); esta construção tão simples deixa mais uma vez evidente que é Emma quem está conduzindo, não só a transa, mas toda a relação, ainda que este domínio seja exercido por meio do afeto. Em última análise, é a existência deste afeto que torna tudo ainda mais complicado e doloroso... A consequência da intensidade da entrega de Adèle remonta à principal causa da superficialização das relações: o temor provocado pela ameaça de que o amor e o afeto, quando não mais correspondidos na mesma proporção, se tornem insuficientes para sustentar um relacionamento, levando assim à uma frustração que pode ser aniquiladora...


Adèle Exarchopoulos está excelente no filme, sua atuação é caracterizada por uma completa entrega à personagem, o que fica evidente na verdade contida em cada um de seus sorrisos e olhares. É a grandiosidade de sua atuação que torna a protagonista ainda mais humana e seus sentimentos ainda mais palpáveis, por isso nos identificamos tanto com sua história e com sua ventura, nos vemos nela, afinal seu drama não nos é de todo estranho. Destaco ainda a fotografia e os enquadramentos, que são também essenciais para o desenvolvimento da narrativa, e o ótimo trabalho de edição de som, que prioriza os ruídos diegéticos na ausência de uma trilha sonora. Eu, sinceramente, tenho pena daqueles que deixarão de assistir ao filme, ou de apreciá-lo, pelo preconceito que, infelizmente, pode ser despertado pela sua trama, estes certamente perderão uma das melhores obras lançadas em 2013, sem mais.


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A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

A Grande Beleza

A Grande Beleza (La Grande Bellezza) - 2013. Dirigido por Paolo Sorrentino. Escrito por Paolo Sorrentino e Umberto Contarello. Direção de Fotografia de Luca Bigazzi. Música Original de Lele Marchitelli. Produzido por Francesca Cima e Nicola Giuliano. Indigo Film, Medusa Film, Babe Film, Pathé e France 2 Cinéma / Itália | França.



Em A Doce Vida (1960), clássico absoluto de Federico Fellini, acompanhamos Marcello Rubini (vivido por Marcello Mastroianni), um jornalista amargurado e apático que transita por diversos meios sociais sem fazer ou ao menos se sentir parte de nenhum deles. Por meio de um roteiro quase episódico, o filme retrata a fluidez da vida e a solução encontrada pelo personagem para lidar com ela, ele busca na velocidade dos acontecimentos uma forma de preencher o vazio de sua existência, isso, já naquela época, remetia à uma das características mais marcantes de nosso tempo, que seria tão bem definido pelo sociólogo Zigmunt Bauman como a 'modernidade líquida'. A Grande Beleza (2013), o novo longa de Paolo Sorrentino, além de ser similar em diversos aspectos, repete o mesmo feito realizado pelo filme de Fellini, ele, através de uma trama igualmente episódica, consegue captar a essência do mundo contemporâneo, se tornando assim um recorde bizarro e ao mesmo tempo realista da vida na alta sociedade italiana.

No centro da trama de A Grande Beleza está o jornalista Jep Gambardella (vivido por Toni Servillo, em uma excelente interpretação), um bon vivant convicto que aprecia ao máximo os prazeres que seu dinheiro pode comprar. Tal como Marcello Rubini em A Doce Vida, ele circula por meios sociais distintos, onde aparenta buscar algo que nunca consegue encontrar... Para que se posa compreender o drama de Jep e a reflexão proposta pelo filme basta que se faça uma breve análise de duas passagens presentes no primeiro ato. Na primeira delas, um grupo de turista orientais passeiam por Roma, um deles, embriagado pela beleza do lugar onde se encontram e pela música que toca, quase hipnótica, acaba se distanciando um pouco dos demais. Ele tira várias fotos na esperança de captar e eternizar a beleza do momento, que ele sabe que é efêmero, percebemos em seu rosto a satisfação de estar em contato com algo maior, quase sublime. Em um sutil movimento, a câmera gira em torno dele, ele enxuga o suor da testa com uma das mãos e desfalece, vítima provavelmente de um ataque cardíaco.



A segunda passagem retrata uma festa repleta de excessos e extravagâncias, é o aniversário de 65 anos Jep Gambardella que está sendo comemorado. A experiência fugaz e hedonista proporcionada pela música eletrônica quase ensurdecedora, pelas performances bizarras, pelo sexo e pelas drogas, não consegue aplacar a sensação de vazio que Jep sente. Ainda nesta passagem, há um momento em que ele literalmente se destaca da multidão e do ambiente diegético e se volta para a câmera para explicar que sempre acreditou que estava destinado à sensibilidade - uma sensação que, diga-se de passagem, é incapaz de ser saciada pelos exageros que seu dinheiro podia comprar. Ao compararmos as duas passagens, percebemos uma questão interessante, da qual resulta uma lógica que se manterá durante o restando do filme: A beleza real não está na extravagância, mas na simplicidade, ela não pode ser forjada, pois precisa ser natural, espontânea e antes de tudo autêntica, tal como fora no momento singular vivido pelo personagem da primeira sequência.



Nem o oriental, que sucumbe ao se sentir preenchido pela beleza, nem tão pouco Jep conseguem realizar aquilo que vejo como o principal objetivo deles na trama: perpetual os momentos sublimes. O drama do protagonista é ainda mais complexo, ele se perde ao tentar eternizar uma beleza que sequer é real e ele tem plena ciência disso. No decorrer da trama, percebe-se que a aversão que ele tem à realidade está diretamente relacionada ao seu medo de encarar o vazio de sua vida e aos inúmeros fantasmas do passado que ainda lhe atormentam. 



Jep ainda colhe os frutos do lançamento bem sucedido de seu único livro, publicado já há mais de quarenta anos, mas desde então ele nunca conseguiu escrever outra obra. O status que o sucesso lhe proporcionou e o dinheiro que conseguiu acumular lhe garantiu, durante todo este tempo, acesso irrestrito aos meios frequentados pela nata da sociedade de Roma. Porém, ao completar 65 anos ele vê tomado por uma reflexão acerca daquilo que sua vida se tornou, é então que ele decide buscar inspiração para um novo projeto literário. A reflexão lhe transporta para a sua juventude, uma época na qual ele viveu aquele que talvez tenha sido o seu único amor verdadeiro. Entorpecido palas reminiscências, ele tenta buscar no mundo à sua volta, algo que possa ter um significado tão valioso quanto o deste amor, que de repente volta a mexer com os seus sentimentos de uma forma tão intensa. 



Em sua procura por inspiração, Jep se depara com o que ele mais temia: o vazio. A percepção de que tudo em torno de si é superficial e falso se torna ainda mais incômoda à medida em que sua sensibilidade é aguçada pelos fatos do passado que sua mente trás à tona. Ao acompanhar a busca do personagem por respostas e por um significado maior, que possa lhe dar inspiração e um sentido para a sua própria vida, o filme acaba abordando também a incapacidade da arte, da ideologia e da religião de proporcionarem para o indivíduo soluções definitivas para boa parte de suas questões. Ao procurar por respostas, o que Jep encontra são apenas novas perguntas. As pessoas à sua volta, no entanto, se contentam com as meias verdades, com aquilo que se tornou convenção, com a superficialidade e com a falta de significado da vida. Nota-se que este contentamento e o apego às mentiras, que elas contam para si mesmas, foram as formas que estas pessoas encontraram para lidar com o vazio...


A artista performática que se joga contra um muro; a menina pintora que, em um acesso de raiva, preenche uma tela atirando latas de tinta contra ela; o dramaturgo que escreve para impressionar a mulher que ama; o rapaz que fotografou a si mesmo todos os dias durante 15 anos e organizou, ele próprio, uma exposição para mostrar o resultado do trabalho; a stripper que, apesar da idade já avançada, continua a trabalhar para não perder as regalias que a atividade lhe proporciona; o mágico que não se preocupa em quebrar a magia de seu espetáculo ("é apenas um truque', ele diz); a mulher que se gaba da relevância de sua obra e de sua militância política, sem que elas sejam de fato relevantes; a freira anciã, tratada como santa, que também se encontra tão perdida quanto todos os outros em relação às questões inerentes à vida... todos estes personagens e cada um dos outros que surgem na tela durante as duas horas e vinte minutos de filme trazem junto consigo a representação de algo maior, em suas composições caricatas (outro aspecto que remete a Fellini) é possível identificar uma crítica aos valores e aos costumes adotados pela sociedade retratada.  



O que difere Jep Gambardella de Marcello Rubini é apenas a disposição que o primeiro tem de compreender o mundo no qual está inserido, enquanto o outro apenas transitava pelos meios que fraquentava sem intervir neles e nem ao menos questioná-los. Creio que não é forçação de barra pensar que o que A Grande Beleza proporciona é na verdade um choque de gerações, que se dá entre a geração atual e aquela à qual o protagonista pertence (curiosamente, a mesma retratada em A Doce Vida de Fellini). Não é um choque tão grande, afinal de contas tais gerações são similares em diversos aspectos, mas ainda assim é notável o atrito entre as duas, principalmente nas forma de lidar, pensar e questionar a sensação de vazio, que tem se tornado cada vez maior e mais intensa... O interessante é perceber que a beleza da qual o título do filme fala está presente durante toda a sua duração, porém poucos são os personagens que a percebem. 



A fotografia dirigida por Luca Bigazzi transforma Roma em um deleite à parte no filme, a cidade aparenta nunca ter estado tão bela. A escolha das locações e dos enquadramentos captam uma aura que torna cada fotograma uma obra de arte individual, que traz consigo uma carga de significados muito mais ampla do que aquela observada nas 'performances artísticas' que o filme retrata em seu desenvolvimento. A leveza com que a câmera caminha pelos cenários, como se já esperasse captar deles algo que não está sendo verbalizado, remete mais uma vez ao cinema de Fellini, tal sutileza coloca o filme em um ritmo relativamente lento (por favor, não confundam lentidão com algo depreciativo) abre margem para inúmeras reflexões sobre a arte, sobre as coisas às quais apegamos para tentar aplacar o vazio e sobre  vida como um todo. Não tenho dúvidas de que A Grande Beleza seja um filme pretensioso, mas ele cumpre com relativa facilidade tudo aquilo a que se propõe, não deixando nada a desejar. Volto a dizer, a cortina dos clássicos ainda se encontra aberta!



Assistam ao trailer de A Grande Beleza no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.


Confiram também aqui  no Sublime Irrealidade a crítica de Aqui é o Meu Lugar,
também dirigido pelo Paolo Sorrentino.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Os Suspeitos

Os Suspeitos (Prisoners) - 2013. Dirigido por Denis Villeneuve. Escrito por Aaron Guzikowski. Direção de Fotografia de Roger Deakins. Música Original de Jóhann Jóhannsson. Produzido por Kira Davis, Broderick Johnson, Adam Kolbrenner e Andrew A. Kosove. Alcon Entertainment, 8:38 Productions e Madhouse Entertainment / USA.


Toda sociedade possui um sistema legal, simples ou complexo, cuja função é proteger a coletividade e o indivíduo de uma provável ruína que poderia ser causada por desvios de conduta, crimes ou contravenções. Ao criar um conjunto de leis e normas a serem seguidas, a sociedade transfere para uma instância maior (no caso o estado) o poder de legislar, julgar e executar penas que corrijam as distorções observadas. Porém, quando um indivíduo ou grupo decide reivindicar para si algum destes poderes que foram outorgados ao estado, todo o sistema legal entra em colapso e isso põe em risco toda a organização social. Tal usurpação de poder geralmente ocorre quando algum tipo de fragilidade é percebido no sistema. Em algumas situações, no entanto, esta fragilidade surge apenas de uma leitura equivocada da realidade, muitas vezes motivada por emoções que se encontram à flor da pele e pelo impulsos que delas decorrem.

Esta questão, que é bastante complexa, está no cerne da trama de Os Suspeitos (2013), o filme mais recente do cineasta canadense Denis Villeneuve. O longa, que já figura em algumas listas dos melhores do ano, nos coloca diante de uma complicada questão moral: até que ponto a intervenção do indivíduo no sistema pode ser justificada pela suposta ineficácia do aparato legal. O roteiro nos aproxima emocionalmente da história contada ao nos colocar na condição de voyers. Nossas emoções são despertadas através do suspense criado de forma magistral por cada um dos elementos de linguagem e o nervosismo e a ansiedade que experimentamos diante de determinadas passagens chega a tornar compreensível as posturas controversas de alguns dos personagens e isso acontece com maior intensidade em pelos menos dois momentos do filme, o que é o resultado de um fenômeno interessante que comentarei mais adiante.


A história começa com o misterioso desaparecimento de duas garotinhas no dia de ação de graças (um detalhe de extrema importância para a narrativa), à princípio as suspeitas recaem sobre Alex Jones (Paul Dano), um jovem mentalmente perturbado que fora visto nas redondezas pouco antes do sumiço das meninas. Alex é detido e interrogado, porém a falta de provas faz com que a suspeita não seja confirmada pela polícia local. Keller Dover (Hugh Jackman), o pai de uma das garotas, se revolta ao descobrir que Jones fora solto após decorrido o prazo legal, durante o qual a polícia podia mantê-lo sob custódia mesmo sem ter provas contra ele. Mesmo sem nenhum indício de que o rapaz tenha algum envolvimento com o caso, Dover se convence de que ele é o responsável, ou um dos responsáveis, pelo desaparecimento de sua filha. Descrente na atuação da polícia, ele sequestra o suspeito e passa a torturá-lo em busca de informações.


Keller Dover usurpa para si o poderes de jurgar e de executar penas, totalmente descontrolado ele age sem ao menos refletir sobre o peso, o significado e as consequências de suas ações. No afã de encontrar a filha, ele acaba envolvendo também os pais da outra menina no sequestro; Franklin (Terrence Howard) e Nancy Birch (Viola Davis) vivenciam de uma forma ainda muita intensa o dilema moral que toda a situação representa, mas mesmo assim acabam sendo coniventes com as ações desesperadas de Dover. Os atos dos três são tão condenáveis quando os do sequestrador de suas filhas, com a diferença de que as ações deste são apenas presumidas enquanto que as deles são reais e extremamente violentas. A postura de Grace (Maria Bello), a esposa de Keller, é bem diferente da do marido, ela se abate terrivelmente com a situação, mas consegue manter um considerável nível de lucidez, mesmo permanecendo na maior parte do tempo sob o efeito de medicamentos tranquilizantes.


Loki (Jake Gyllenhaal), o detetive responsável pelo caso, é outro personagem de extrema importância para a narrativa, ele é a representação perfeita das limitações e da fragilidade do estado. Visivelmente atormentado pelos seus próprios fantasmas, ele recorre a respostas vazias para manter os ânimos dos familiares das vítimas sob controle, todavia fica evidente que nem ele mesmo consegue mais acreditar naquilo que diz. Em uma das passagens mais emblemáticas do filme ele próprio decide ultrapassar os limites da lei em busca de uma informação; esta passagem aponta para um problema maior e deixa evidente qual é a real intenção do roteiro ao abordar as problemáticas em torno desta questão.


Acredito que a proposta da trama de Os Suspeitos não é emitir juízo moral, nem tão pouco condenar as ações de seus personagens, talvez a sua real intensão seja a de colocar as questões abordadas em evidência, chamando assim a atenção para a fragilidade dos poderes constituídos, para as consequência da usurpação destes poderes por pessoas ou grupos que se encontrar incapacitados para administrá-los e principalmente para conduta moral que demonstramos diante de uma situação semelhante. É neste último ponto que se encontra a importância do processo mental criado pelo filme, que nos coloca em uma situação similar à dos personagens que decidem agiar à margem da lei. É natural que nós expectadores, ao assistirmos a um filme, aprovemos ou não os atos dos personagens diante de algumas situações complexas, aqui tal avaliação de conduta ganha uma enorme importância, por estar diretamente relacionada à reflexão que o filme propõe.


As ótimas atuações aliadas à excelente construção dos personagens tornam a história ainda mais forte, impactante e plausivelmente real. A trilha sonora, a fotografia, os movimentos de câmera e a edição contribuem para a manutenção de um clima extremamente opressivo e melancólico, que é condizente com o retrato social que o filme como um todo representa. Em um ano em que consegui assistir a um número bem reduzido de filme, Os Suspeitos foi uma das mais gratas surpresas, não tenho dúvidas, trata-se de uma obra de inegável qualidade, que prova que Hollywood ainda é capaz de dosar na quantidade certa o entretenimento e a profundidade dramática.


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A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

sábado, 30 de novembro de 2013

Frances Ha

Frances Ha - 2012. Dirigido por Noah Baumbach. Escrito por Noah Baumbach e Greta Gerwig. Direção de Fotografia de Sam Levy. Produzido por Noah Baumbach, Scott Rudin, Rodrigo Teixeira e Lila YacoubPine District Pictures, RT Features e Scott Rudin Productions / USA.


Frances Halladay (Greta Gerwig) é uma aspirante a bailarina que tenta encontrar um lugar para si em um mundo no qual aparenta não caber. Ela divide um apartamento com Sophie Levee (Mickey Sumner), sua melhor amiga, juntas eles tentam driblar a monotonia e e falta de rumo de suas vidas, elas se completam e este vinculo afetivo é a relação mais consistente que ambas possuem. É a intensidade desta amizade que leva Frances a recusar o convite que o namorado lhe faz para morarem juntos e esta recusa acaba os levando ao rompimento. Sophie, no entanto, não faz a mesma escolha ao se ver diante de uma situação semelhante e sua repentina mudança torna ainda mais evidente o vazio da vida de Frances, que se vê então obrigada a lidar com a solidão, com a carência afetiva e com a falta de dinheiro. Sem ter tanta coisa em que se apegar, ela tenta se esconder atras de uma falsa felicidade, mas, sob a camuflagem de uma alegria fingida existem feridas não curadas e uma forte melancolia. O alto astral, que ela tenta demonstrar, é tão superficial quanto os relacionamentos que ela cria depois da partida da amiga e do término com o namorado.

Frances concentra em si diversas características atribuídas à geração 'y', ela é imediatista, não consegue estabelecer planos de longo prazo, age muitas das vezes movida pelo impulso e a falta de inteligência emocional acaba sendo um de seus maiores entraves. Tudo isso faz com ela seja uma personagem extremamente empática e cativante, afinal de contas nela estão representados alguns de nossos próprios medos e dúvidas, isso leva ao surgimento de um processo de identificação entre o filme e parte de seu público e este processo é capaz de potencializar um dos principais efeitos do longa: o de chamar a atenção para a fragilidade dos princípios que nos regem na vida em sociedade e para o descolorido do mundo à nossa volta, que parece se tornar menos interessante à medida em que nossos relacionamentos se tornam mais inconsistentes e menos duradouros. 


Até ser surpreendida, Frances parecia acreditar que seu relacionamento com Sophie estava imune à qualquer tipo de crise, todavia, isso era uma mera ilusão. Por estar despreparada para enfrentar uma situação inesperada, ela recorre à tentativas falhas de se restabelecer de outras formas, que não através das relações. Percebe-se que ela quer provar para todos à sua volta que está bem e isso explica o exagero quase caricato de sua felicidade, que é tão frágil quanto as ilusões que ela criara anteriormente em relação à amizade com Shophie. Recai então sobre ela o peso das inúmeras cobranças que lhe são feitas pela sociedade: ela tem 27 anos e ainda não tem um emprego estável, não conseguiu alcançar sucesso em nada do que já fez e parece incapaz de viver relacionamentos amorosos que superem a condição de uma mera aventura efêmera... Sophie, por sua vez, tem tudo isso, mas ela também não está feliz, o que nos leva a crer que o padrão de felicidade que ela conquistou (o mesmo adotado pela sociedade) é incapaz de satisfazer seus anseios mais íntimos.


O drama de Frances é o mesmo de toda uma geração que optou pela liberdade em detrimento da segurança, o temor provocado pela incerteza em relação ao futuro e pela ameaça de que uma nova frustração possa reabrir velhas feridas tornou os laços afetivos ainda mais vulneráveis, transformando-os em algo extremamente assustador, indesejável até. É o vazio existencial e a falta de significado da vida que se levantam contra a protagonista e diante deles ela não sabe o que fazer, afinal de contas nem a segurança nem a liberdade são capazes de aplacá-los, resta-lhe então a difícil tarefa de conviver com a sensação de estar em uma realidade à qual não se pertence - Prestem atenção na situação que explica o porquê do sobrenome de Frances ter sido abreviado no título do filme, trata-se de uma metáfora que traduz a condição na qual ela se encontra. 


A fotografia em preto e branco dá ao filme uma aura melancólica, quase opressiva em algumas passagens, que reforça a dor presente em sua trama. Isso pode ser percebido em sequências como aquelas que retratam uma curta viagem que Frances faz para a França; a Paris retratada nessas cenas é bem diferente daquela que estamos acostumados a ver em outros filmes. Aqui o descolorido reforça a frieza da cidade e a solidão que a protagonista sente enquanto está lá, a passagem na qual ela tenta acender um cigarro, à margem do Rio Sena, é simples, mas dotada de uma grande carga de significação e representatividade - o isqueiro não funciona e isso basta para que ela esboce uma reação que deixa evidente a sua frustração, é como se nada mais desse certo e diante deste fatalismo até mesmo a "cidade luz" perde o seu brilho. O filme chega a causar um leve aperto no peito, por retratar um mundo plausivelmente real e tão próximo das nossas próprias realidades.


Greta Gerwig está brilhante no papel da protagonista, a sua construção da personagem é cuidadosa e de uma notável entrega. Não tenho dúvidas, Frances Ha é dela e este talvez venha a se tornar o seu papel mais emblemático. O fato dela também assinar o roteiro pode ser uma explicação para a intensidade de sua interpretação, que adquire por isso um viés ainda mais autoral... Noah Baumbach conseguiu o notável feito de dirigir um filme cômico, que passa longe da superficialidade da maioria das comédias românticas, e ao mesmo tempo dramático, sem precisar para tal apelar clichês ou exageros sentimentais... Por enquanto Frances Ha é apenas uma ótima produção com 'algo a mais', mas o tempo pode torná-lo ainda maior, afinal o que temos aqui é um filme sobre a nossa época, sobre nossos amores, sobre nossas amizades, sobre nós... Tudo isso tende a ficar ainda mais claro com o distanciamento proporcionado pelo passar dos anos.


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A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

A Espuma dos Dias

A Espuma dos Dias (L'écume des Jours) - 2013. Dirigido por Michel Gondry. Escrito por Michel Gondry e Luc Bossi, baseado na obra literária de Boris Vian. Direção de Fotografia de Christophe Beaucarne. Música Original de Étienne Charry. Produzido por Luc Bossi. Brio Films, StudioCanal, Scope Pictures, France 2 Cinéma, Hérodiade, Radio Télévision Belge Francophone (RTBF) e Belgacom / França | Bélgica.


O filósofo Jean-Paul Sartre, um dos principais representantes da corrente existencialista, acreditava que o indivíduo só se definia como tal através de sua própria vivência; para ele a vida era absurda e destituída de qualquer sentido, sendo de tal modo caberia a cada um buscar a sua própria razão de ser (à qual ele chamou de essência) e não existia outra forma de encontrá-la a não ser através da experiência, ou seja, vivendo. Avesso à cultura do imediatismo, reforçada pelo consumismo capitalista, Sartre passou a defender a concepção de um 'projeto de vida', através do qual cada indivíduo, à sua maneira, estabeleceria uma meta, que o guiaria e motivaria cada uma de suas ações; ele acreditava que "o homem não é senão o seu projeto" e que ele "só existe na medida em que se realiza", não sendo portanto, "nada mais do que o conjunto dos seus atos, nada mais do que a sua vida". Sem este projeto o homem estaria condenado à agonia de apenas existir, sem jamais encontrar a sua verdadeira essência.

Em O existencialismo é um Humanismo, uma de suas obras mais importantes, Sartre defendeu que "o homem, antes de mais nada, é o que se lança para um futuro [...] um projeto que se vive subjetivamente,... nada existe anteriormente a este projeto;... o homem será antes de mais nada o que tiver projetado ser. Tal concepção, no entanto, pode representar um fardo demasiadamente pesado se for analisada por uma perspectiva diferente da adotada pelo filósofo em suas obras. A ideia de que o homem é o resultado de suas próprias ações e daquilo que planeja para a sua vida pode parecer um fruto de um humanismo quase positivista, contudo, esta mesma ideia joga sobre o indivíduo uma responsabilidade que na prática ele não é capaz de assumir e de suportar... Entender o conceito do 'projeto de vida' de Sartre e a crítica feita a ele é fundamental para que se possa compreender a trama e algumas das inúmeras metáforas presentes em A Espuma dos Dias, o novo filme de Michel Gondry, que pode ser analisado como uma crítica feroz à forma com que são interpretados alguns dos fundamentos do existencialismo. 


A história contada pelo longa é uma verdadeira desconstrução da ideia do 'projeto de vida'. O roteiro, que foi adaptado do livro de Boris Vian, aborda a incapacidade do indivíduo de sustentar a motivação, que deveria lhe conduzir à sua própria essência, ao se encontrar diante de peripécias proporcionadas pela vida, sob as quais ele não exerce controle algum... Na trama, Colin (Romain Duris) é um rapaz de condição social abastada que encontra no amor uma razão maior para sua existência, que parecia ser até então completamente vazia. A paixão correspondida lhe dá algo que as regalias e excentricidades que seu dinheiro comprava nunca foram capazes de lhe proporcionar. Em Chloé (Audrey Tautou), sua amada, ele encontra algo que o completa e isso faz com que ele comece a fazer planos e o 'projeto de vida', tal como defendido por Sartre, passa a fazer sentido para ele. A convivência a dois parece proporcionar a Colin uma felicidade ainda não experimentada, no entanto tudo começa a desabar depois que Chloé recebe o diagnóstico de uma grave doença que, silenciosamente, tomara o interior de seu peito. 

Rapidamente o amor idealizado e os planos para o futuro dão lugar a uma opressiva sensação de que a vida acabara de entrar em uma contagem regressiva. Tudo isso, no entanto, é contado pelo filme de uma forma poética e repleta de fantasia. A narrativa usa o surreal para representar o absurdo e a falta de sentido da existência, Michel Gondry cria então um realismo fantástico onde quase tudo é possível, à princípio toda a realidade diegética nos parece bela e extremamente cativante; de certo modo ela representa as inúmeras possibilidades de uma vida que se mostra como uma folha de papel em branco, pronta para ser preenchida com os frutos de sonhos e de ideais utópicos, todavia, a peripécia transforma aquilo que parecia um sonho em um pesadelo angustiante, a doença insurge como o fatalismo que mostra que nem tudo é possível. Pouco a pouco percebemos que é a realidade, tal como a conhecemos, que começa a macular a fantasia anteriormente observada.


A fragilidade dos planos de Colin (e da ideia do projeto de vida por extensãofica evidente á medida que a doença de sua esposa se agrava e o filme retrata tudo isso de uma forma extraordinariamente bela e ao mesmo tempo dolorosa, através da fotografia e da direção de arte são construídas também metáforas visuais que apelam ora para o sensorial, ora para o emocional, nos conduzindo a uma experiência sem tantos similares no cinema contemporâneo. Mas, a surpresa proporcionada nos primeiros atos do filme pelos elementos fantásticos, que surgiam a todo instante na tela, de repente dá lugar a uma sensação constante de claustrofobia. O absurdo deixa de ser novidade e passa a ser encarado com o olhar da repetição, que pouco a pouco lhe transforma em algo trivial, quase banal (o que remete à forma com que encaramos o absurdo de nossas próprias vidas)...


A narrativa se vale de inúmeros elementos visuais para retratar o impacto da descoberta da doença (que é uma clara referência o câncer) na vida dos personagens; sombras, poeira e telhas de aranha começam a se espalhar pela casa tornando a cada vez mais sombria, as portas e janelas se encolhem reforçando a sensação de aprisionamento que o protagonista experimenta. É de uma construção formidável, por exemplo, a passagem na qual Colin toma ciência da gravidade da doença de sua esposa, esta sequência é uma das que mostram o quanto a ruptura com o realismo, adotada pela narrativa, contribui de fato com o desenvolvimento da trama e com a reação que ela é capaz de provocar no público (ou ao menos em uma parcela dele). 


É interessante perceber que Nicolas (Omar Sy), o cozinheiro de Colin, também tem sua vida transformada pela doença de Chloé - ele envelhece oito anos em apenas dez dias - através dele a trama chama a atenção para um outro questionamento que também se choca com o penamento de Sartre: Estaria o indivíduo sujeito a sofrimento provocado pela falência do projeto de vida daqueles que estão à sua volta? Se a resposta a esta pergunta for 'sim', cai por terra boa parte dos pressupostas que sustentam o ideal do 'projeto de vida'. Esta e outras dúvidas levantadas pela trama nos conduzem à inúmeras outras questões, dentre elas uma que é de extrema importância para a construção da crítica ensaiada pelo filme: Há de fato alguma essência a ser encontrada, ou o que acreditamos ser a realização não passa de uma ilusão proporcionada pela crença em um ideal distante, que talvez nunca se realize? 


Há ainda um outro personagem de extrema importância para a construção das referências à obra do já citado filósofo existencialista, ele é Chick (Gad Elmaleh), o melhor amigo de Colin, ele é um seguidor fanático do escritor Jean-Sol Partre (uma óbvia referência a Sartre, como o nome sugere), que prega uma versão satírica do projet de la vie, o jovem rapaz segue o pensamento de seu ídolo de uma forma religiosa e ele não está sozinho, Partre reúne em torno de si uma multidão de pessoas que anseiam por encontrar suas próprias 'essências'. Percebemos então que a crítica que o filme faz não é ao Sartre, mas ao que fizeram da filosofia dele. Não é por acaso que o personagem que o satiriza faz dos lançamentos de cada edição de seus livros algo similar a um culto, que reúne em polvorosa a sua legião de adoradores (ops, leitores); está aí uma crítica ao consumismo que esvazia de significado até a filosofia mais complexa e a converte em uma religião, algo superficial e facilmente digerível. 


Outra passagem do filme mostra os livros de Jean-Sol Partre sendo vendidos em capsulas (das quais Chick logo se torna dependente) com esta inferência o filme associa o objeto de sua sátira - a filosofia de Sartre - às pilulas da felicidade (leia-se anti-depressivos, ansiolíticos, etc), medicamentos usados para aplacar os efeitos do contato com a falta de sentido da vida... Ao final de A Espuma dos Dias, a citação de Sartre que diz que  "[...] o homem é responsável por aquilo que é, assim, o primeiro esforço do existencialismo é o de pôr todo homem no domínio do que ele é e de lhe atribuir a total responsabilidade de sua existência", chega a soar tão absurda quanto o mundo ao qual o filme nos apresentou em seu começo e é então que percebe-se o quanto Michel Gondry é bem sucedido em seu propósito, ele consegue nos inserir e nos conduzir por um processo mental que transforma aquilo que nos parecia absurdo em algo corriqueiro e aquilo que parecia ser tão coerente em um completo disparate...


Destaco, além do roteiro e dos elementos técnicos (fotografia, direção de arte, trilha sonora, figurinos e maquiagem), os bons desempenhos de todo o elenco principal, Romain Duris transita com notável desenvoltura pela realidade na qual seu personagem está inserido, a Audrey Tautou consegue com olhares e gestos sutis nos convencer da fragilidade de sua Chloé e Omar Sy nos presenteia mais uma vez com o alto poder de cativação que sua figura possui, o que é muito bem usado na trama para criar uma espécie de contraste entre os dois momentos retratados pelo filme... Como eu disse no início desta resenha, a compreensão dos pressupostos que serviram de base para a trama é de fundamental importância para uma apreciação plena daquilo que o filme tem a nos oferecer e sem ela tudo o que vemos nele pode parecer ser apenas um amontoado de esquetes surrealistas sem um significado maior. A Espuma dos Dias não é uma obra-prima, mas isso não tira o mérito de seus realizadores, que nos presentearam com uma das obras mais bonitas e complexas deste ano.


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A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.